domingo, 19 de novembro de 2017

4. Senhor cidadão

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2017 foi um ano imprevisível para meu coração, inacreditável para a minha mente. Nunca pensei que fosse acontecer o que aconteceu, que sentiria tanto assim, e que existam tantos "cômodos" em minha cabeça. O cérebro é um universo, e o coração um oceano tormentoso.

Por sorte, tive forças que me surpreendem toda vez que paro para pensar no assunto, e companhia de amizades antigas e novas, coisa que também não previ para este ano. Foi tudo tão intenso que dias pareceram durar semanas, mesmo que as semanas, em certos momentos, tenham voado como se fossem dias. Senti coisas por cinco anos, e só se passaram cinco meses.

Falta mais de um mês para a chegada de 2018, e não sou tão favorável assim a retrospectivas, mas não tem como não parar cinco minutos do dia e pensar caralho, como foi que isso aconteceu? Foram meses tempestuosos, com um prelúdio já no primeiro mês, clímax ali no meio, no inverno, e um desanuviar por agora, porém ainda em meio a tempestade.

Tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais. É algo que não dá para fazer muito esforço para prevenir: cada um com seu cada qual e vou respeitando decisões alheias, porque a idade vem chegando e com ela a necessidade de fazer escolhas, determinar prioridades. Minha prioridade é viver minha vida como acredito que seja correto, porque ela é uma só, independente do que filosofias e religiões afirmem. Não é possível parar de viver a vida que a gente tem para viver a de outrem (salvo situações específicas e extremas, ou seja, estou falando só do meu caso mesmo).

Então estou aqui estudando, frustrada com um tcc que sairá em dez dias, praguejando contra o mundo, mas principalmente comigo mesma por ser tão desorganizada e procrastinadora. No trabalho cada dia é uma odisseia; me desespero, mas sou apaixonada por emoção, dramas, aventura, coisas novas (sim, museu tem tudo isso: "quem vive de passado" tem muito o que fazer, muito em que pensar e até muita diversão - sim, estou falando com você, você mesmo que utiliza a frase quem vive de passado é museu, você vai morrer antes do natal).  Na vida pessoal, um a mistura de notas do subsolo, músicas tristes, poesia, dengo, ummagumma e até um pouquinho do que se pode dizer de relevante sobre Bukowski. Mas é aquela coisa: viver cansa.

E que bom que cansa. Quando não faço nada, eu durmo mal. Preciso gastar as energias de dia para ter motivos para dormir à noite. É a mesma coisa na vida: ela precisa acontecer. E acontecer em diversos caminhos, concomitantemente. Porque se alguma coisa vai mal, outra coisa deve ir bem, para equilibrar. Para distrair, para dar esperanças, porque senão tudo vira frustração e desespero. Mesmo para mim, que estou desesperada todos os dias, até dormindo.

Parênteses: essa tarde mesmo, não estava fazendo nada e dormi mal; sonhei sobre um autor que falava da miséria humana no sentido filosófico, com um aluno meu falando sobre racismo e com um mendigo aparecendo em determinado espaço. Acho que o sonho nada tem a ver com o texto, mas achei um sonho pesado demais para um cochilo de sábado à tarde. Eu só queria descansar, sabe, e dormir muitas vezes me cansa. Dormir significa que vou mais uma vez entrar num trem, ônibus, metrô, avião ou carro. Que vou andar por plataformas e estações. Que vou trabalhar. Então tenho hora extra dormindo, não sei o que é sonhar com o nada mais. Meus sonhos são urbanos, conturbados, atarefados, arquitetônicos. Fecha parênteses.

Esses tantos acontecimentos amorteceram desgostos e pude seguir minha vida com certa paz. Fui racional e fria quando e com quem pensei que nunca seria, me senti uma mulher arretada demais. Fui emocional e calorosa quando e com quem nem pensei que daria mais tempo de ser, e me senti uma mulher indefesa demais. Foi um Deus-nos-acuda, fui Inaurafui Compadecida. Fui também indiferente. Mas sempre comovendo-me por excesso, por natureza e por ofício. Porque acho medonho alguém viver sem paixões.

Então hoje completo o quarto dia do desafio de 30 dias de música. Esse ano está tão confuso que nem tenho achado ruim lembrar de alguém com músicas que amo. E eu amo tanto esse artista (também a pessoa, mas isso é irrelevante), que nem lembrando de quem preferiu me esquecer, essa música fica ruim. Pelo contrário: ela é ainda mais forte e poderosa, e só se auto afirma, dado os acontecimentos recentes.


Se o caso é chorar, me recuso. Prefiro me defender com esse julgamento/questionamento maravilhoso, tropicalista, justo, que diz muito sobre todo aquele cidadão opressor: o político, o da elite, burguês e pequeno burguês, o chefe, seja o de fábrica, de empresa ou de família; coronéis saruê, o porco, o cão, a ovelha orwellianos. E, por falar em ovelha, continuo sendo, com muito orgulho (e às vezes com dor) a ovelha negra da família.

4. a song that reminds you of someone you would rather forget about (uma música que te lembra de alguém que você prefere esquecer)



Senhor cidadão
Me diga, por quê
Você anda tão triste?
Não pode ter nenhum amigo
Na briga eterna do teu mundo
Tem que ferir ou ser ferido
O cidadão, que vida amarga

* Confira minha lista do 30 day music challenge