18 de dez de 2017

Nesta vizinhança sou filha bastarda

Hieronymus Bosch - O jardim das delícias terrenas, 1504.
2017 foi um ano estranho. Tudo de pior aconteceu com coisas boas acontecendo por dentro. Ou pelas beiradas. Preciso começar dizendo que, muitas vezes em minha vida, principalmente quando se tratava do meu pai, minha mãe e minha irmã costumavam dizer que eu sempre agia diferente dependendo de com quem eu tratava. Pois bem. Nunca achei ruim, me defendi - ou criei uma desculpa para mim mesma - dizendo e pensando que para cada pessoa há um trato. Textos exotéricos - genéricos - dizem que quem tem libra no mapa astral costuma ser muito sociável e diplomático. Quem tem câncer, então, costuma saber manipular. São, respectivamente, minha lua e meu sol. Eu culpo os signos mesmo, para não ter que culpar a mim mesma por não conseguir mudar ou ser como se deve.

2017 começou ruim, porque começou com pendências de 2016. Há pessoas na internet se achando muito sábias ao dizerem aquela tal "novidade" que esperar que o ano acabe é um pensamento idiota e que a vida não muda. Olha, muda sim. Só pelo simples fato de termos calendários milenares, fases da lua, posição dos astros, rotação e translação da terra e mudança de estações. As pendências podem virar a página do calendário conosco, mas é um novo ciclo sim, nosso corpo percebe isso, e sua chuva de likes não muda este fato.

Posto isso, 2017 foi um ano de término de relações, quebra de laços. Começou por minha culpa e terminou por meu senso de justiça. Este meio não é simples de explicar, mas não posso fingir que não aconteceu. No mesmo ano, reconectei-me com pessoas do passado e me empolguei bastante, conheci pessoas novas - ontem mesmo! - e queridas, me senti esquecida, e esqueci também.

Em 2017 apaguei de vez meu twitter. Cansei das pessoas de lá. Cansei mais das bolhas esquerdistas cirandeiras good vibes gratidão sororidade do que dos piores trolls da história da humanidade recente, reavivadores de pragas preconceituosas horrorosas. É como se eu estivesse, nos últimos cinco anos, indo do centro do espectro político, caminhando paulatinamente para a extrema esquerda e pulando no penhasco do plano cartesiano, para o sul de lugar nenhum. Sempre tive problemas com gente, independente ou até mesmo por causa de sua posição política e da quantidade de sua externalização de simpatia, antes mesmo de saber ler. Continuo seguindo comunista, mesmo que comunistas possam vir atestar que não o sou: neste aspecto, só confio em Marx e nada mais.

Dizer especificamente o que estou tentando explicar pode ser um problema: nunca cometo pequenos erros enquanto eu posso causar terremotos. Inclusive, um dos motivos de eu pegar ranço de twitter é justamente a péssima interpretação que as pessoas têm, não importa se elas votam em Bolsonaro ou curtem vídeos do Gregório Duvivier. Se elas são estudantes que querem prestar Fuvest para a famigerada FFLCH ou se são engenheiros civis com pós-doc. Então deixa pra depois.

Apesar da humanidade, me descobri frágil. O robô, o encoleirado que eu adorava apontar, do Dahmer, também era (sou) eu. Fugi tanto de rotinas, padrões, coisas estabelecidas, que quando dei por mim estou vivendo assim mesmo. Inclusive é um spoiler da vida que vou dar aqui: fazer aquilo que se gosta não significa ter sucesso acima daqueles que fazem as coisas por obrigação e sobrevivência. No final das contas vamos todos morrer mesmo, e os sonhos realizados também entediam. Isso está escrito em músicas, livros e séries. E mesmo nos contos de fadas! O fim é o felizes para sempre, imagina ser feliz para todo o sempre, sem poder modificar um instante sequer, sem poder variar um sentimento sequer? Quantas vezes nos perguntamos o que há depois do final feliz? Eu estaria numa pior se a vida fosse resolvida. Que mais absoluto tédio.

André Dahmer - Malvados
Meu sonho, na faculdade, era "subir" todos os degraus da academia. Isso há quatro anos atrás. Fui em simpósios, escrevi artigo, mas sempre incomodada. Porque as pessoas vivem em grupos. E detesto estar em grupos. As pessoas conseguem mestrados como se fossem bromélias e seus orientadores plantas que aceitam bromélias como parasitas. Tudo é por indicação. Você, se não é daquele grupo e não concorda com ele, é porque é do grupo contrário. Que preguiça disso. Que preguiça do modo como palestrantes discursam sobre "o lusco-fusco da revolução russa" na FESPSP às 21h da noite, com aquela voz arrastada, lendo um texto próprio - bem mal escrito - e se achando o máximo da genialidade. Que preguiça de ir comer na lanchonete de uma faculdade da qual não pertenço - nem conseguiria - e sentir um peso em meu cangote como se todos estivessem me olhando como acontece naquelas cenas sufocantes do Roman Polanski e do Orson Welles.
Roman Polanski - Repulsion, 1965
Falando em Polanski, aprecio a vivacidade com que vocês discutem sobre obra versus postura do artista. É uma boa pauta, de verdade. Mas é uma "bandeira" para a vida inteira. Dou boa sorte a vocês nessas questões, me privarei delas. Assim como me privei dos jornais. Dos comentários de portais. Da timeline que bloqueei no facebook. Das assinaturas que cancelei.

Houve momentos na vida que tinha certo receio de afirmar minhas coisas. Porque as pessoas cobram. Tanto cirandeiros como impeachmistas possuem a necessidade de querer censurar algo. Geralmente quando querem censurar algo aí é que esse algo se torna famoso, então cuidado. Sempre procuro conhecer e discutir as coisas, e não proibir nada de ninguém. Mesmo que às vezes me aflore um autoritarismo, um exagero.

Hoje tenho preguiça de afirmar minhas coisas só por afirmar. Se afirmo, é porque simplesmente quero dizer como me foi importante a experiência e que sim, vale a pena. Geralmente é clássico, me dou bem com clássicos como vocês se dão bem com o contemporâneo, e assim segue a diversidade.

Hoje tenho preguiça de algo que eu adorava: artigos. Jornalistas são bons em escrever artigos. Eu estava feliz querendo escrever artigos. Mas aconteceram dois artigos esse ano, um deles emocionante, e eu descobri que nem isso quero mais. O tcc vai virar capítulo de revista digital e eu só queria cancelar isso. Percebi que sigo uma área de atuação até bem definida, e isso foi sem querer, mas as coisas são tão iguais sempre que meu deus do céu. Mas tem lugares e temas tão mais burocráticos que até sou uma privilegiada na posição em que estou. Tenho o luxo de reclamar do que conquistei, mas eu confesso que estou decepcionada.

Meu grande problema com aquela frase de Graciliano, com as músicas que ouço, os filmes que vejo e os livros que leio, é que as coisas que sinto não são deste mundo. Pode parecer, e até talvez seja, discurso de adolescente, mas o que me rodeia parece tão apático, igual, padrão, que não cabe toda a minha expectativa - que não sei não ter, mesmo sabendo que a decepção é culpa minha mesmo.

Não sei como terminar esse texto. Só sei que esse ano descobri novos sons, novos vídeos, novos textos, novas pessoas. Também conheci o que é sentir demais e o sentir de menos. Só sei que esse ano parece que vai durar até o fim da minha vida, mesmo que eu escreva outras datas em meus papéis. As pessoas dizem "pode aparecer coisa melhor" e eu penso "como, melhor? melhor para quem?"; "você vai conhecer mais pessoas e lugares" e eu penso "que gasto de energia é conhecer gente, é sempre a mesma coisa: oi, tudo bem, tudo e você, que bom, legal", e a partir de certo momento a gente se acostuma e aí começa tudo outra vez.

Até parece um texto triste e etc., mas essas coisas passam pela minha cabeça desde pelo menos 1995, então eu não estou na pior. Só não gosto de fugir de tristezas e pensamentos perturbadores que levam à reflexão. Detesto conselhos que não servem para nada como "fica bem", "não fica triste", "não chora". É como você aconselhar a um gripado a não ter febre. E não me sinto bem estando bem demais e não conversando comigo, porque parece vazio e... plástico. Tem dias que merecem reflexão. Feliz ou infelizmente minha retrospectiva de 2017 é mais ou menos essa. De alguma forma mudei, me sinto diferente. Tem gente que nem percebe. O grande problema é que tenho horror a rotinas, ciclos, padrões, várias pessoas seguindo um mesmo caminho. Sei que estou dentro disso e não tem como não estar. Lido com isso externamente numa boa enquanto a cabeça pensa nisso e muito mais.

A parte boa nisso tudo é sempre que alguém, lá num passado não muito ou tão tão distante, já falou sobre isso. Ou pintou, fotografou, filmou, cantou. Fez parecer bonito, ou horrível. Porque de alguma forma é. É uma metamorfose, não é mesmo? Mudança de pele, como as cobras fazem. E que bichos bonitos são as cobras. Então me sinto amiga de quem viveu há mais de 200 anos e, apaixonado por uma mulher casada, escreveu Werther, de quem viveu até quando eu tinha dois anos e soube exatamente explicar coisas que eu mesma sinto e vejo, mesmo que a galerinha cool ache que ele é um "babaca do caralho".

Certa vez comentei sobre profissões com a chefia, e esta concordou: há pessoas que nascem para solucionar problemas, nós nascemos para criá-los. Serve para a minha vida toda. Sou aquela que não fala mal das fórmulas matemáticas (inclusive detesto quem fala, e quando fala), nem está tanto assim a fim de saborear o resultado. Sou a que se diverte montando o problema, quebrando a cabeça, vivendo o caminho. Sou, imodestamente, uma moleca maravilhosa.
Eu sou o moleque maravilhoso
Num certo sentido o mais perigoso
Moleque da rua, moleque do mundo, moleque do espaço 
Raul Seixas - Moleque Maravilhoso, 1974.