31 de out de 2016

Michelangelo Antonioni's Professione: Reporter (The Passenger - 1975)






Jack Nicholson e Maria Schneider

6 de out de 2016

et cetera

Claude Monet - Water-Lily Pond and Weeping Willow, 1916-19.
Hoje é aniversário da minha mãe, e ela teve uma festa surpresa na casa da minha avó que lembrou meu aniversário de um ano de idade. Porque foi minha tia quem fez. Não vou me estender muito no assunto (vamos deixar para outro aniversário), porque tenho vários trechos de coisas a dizer.

Domingo fui me lembrando de diversos momentos da minha vida e coloquei no twitter. Estava ouvindo Zé Ramalho e lembrei da infância, de quando vi pela primeira vez a foto do meu pai criança e como chorei, etc.

Anteontem eu precisava escrever uma bio a pedido do meu camarada para me apresentar como parte da equipe do filme-c. Estava devendo há semanas, não sabia o que dizer. "Historiadora, só?", ele brincou. Daí eu percebi que minhas bios são isso. Não sei brincar com palavras quando é para escrever uma frase. Preciso de um texto, porque tudo que digo vai com uma introdução, geralmente memórias, que vão puxando memórias, e nem sempre isso fica claro para quem está lendo: "o que é que tem a ver?".

Talvez esse texto esteja ficando confuso, e eu poderia até culpar a Maria Joana que aqui passou. Mas não é, a mente da gente ferve momentos.

Senti vontade de ouvir o A saucerful of secrets, que é um disco maravilhoso do Pink Floyd, último com o psicodélico diamante louco Syd Barrett, de 1968. E eu fui lembrando não só de cenas, como sensações da minha vida. A faculdade, o caminho para ela, com quem me relacionei, como conheci a Mary Jane. Foi um momento pré-2013, então estávamos muito mais-ou-menos, obrigada, no que se refere a política, disputas e golpes. Muita coisa piorou desde então, inclusive minha relação com diversas pessoas que me lembram esse disco. Tem gente que nem falo mais.

Pois bem. Quando eu lembro desses momentos da minha vida, lembro de quem ainda sou. Quando lembrei da faculdade, a psicodelia. Quando, no twitter, lembrei como conheci Lampião e Maria Bonita aos cinco anos de idade, lembrei do meu talvez primeiro sentimento político. E um levou ao outro, de certa forma, já que os dois têm ligação por minha absoluta paixão pela História.

Quando lembro dessas coisas, sinto que "desfragmento" meu cérebro, fazendo com que volte para os eixos, e faz sentido todo tipo de escolha importante que fiz na vida, o que me ajuda a pensar nos meus dilemas atuais. Nada faz sentido se você não analisa outros momentos. As memórias. Deve ser terrível não tê-las, se eu pudesse faria com que todo mundo tivesse seu "backup" seguro em algum canto, e que não tivesse validade.

É por isso que fico realmente furiosa quando dizem que "quem vive de passado é museu". Quando "não sei, sou de humanas". As boas memórias nos dão tantas ideias, tanta força, motivação, explicam coisas que a gente nem imagina. E são ativadas por meio de cheiros, objetos, cores, sons (a música é um ótimo ativador de lembranças).

É muito importante - pelo menos pra mim - a vida fazer sentido. É encontrando sentido nas coisas e relação entre momentos, temas distantes, que me sinto motivada a viver. A aventura não está no Indiana Jones ou qualquer personagem correndo e atirando por aí, descobrindo mistérios em lugares ditos exóticos (ou seja, não europeus/ocidentais/de língua inglesa). A aventura é justamente a nossa capacidade de do nada formar um quebra-cabeça interessantíssimo.

O título do texto é et cetera porque o já referido amigo botou no facebook uma lista que alguém escreveu e não me recordo (o computador trava se eu pesquisar), catalogando os bichos - acho que é isso. Das mais confusas opções, decidi que sou da categoria et cetera. Se for me apresentar a alguém, sou Helen e et cetera. Porque até eu me explicar e decidir quem eu sou, já contei a minha vida toda.

É muito fácil, numa conversa, eu te dizer: "isso que você disse me lembrou uma música", ou "me lembrei de quando, em 1999, eu fiz isso e aquilo outro", ou ainda "essa música me lembra o cheiro x". O que me lembra (não disse?) que percebi hoje no metrô que essa tal Jojo Moyes e as cores de seus livros me lembram bolo rosa com recheio doce carregado no creme de leite. Sinestésico assim.

E falando em sinestesia, no disco que estou ouvindo, tem a poderosa Remember a day. Essa música é úmida. Sempre me imagino numa floresta temperada depois da chuva, olhando de baixo para cima aquelas árvores bem altas, naquele olhar de criança que enxerga tudo exageradamente maior. Aquele cheiro de terra molhada (não pensem em Sandy e Junior), uns cogumelos ali (eu tenho medo, mas compõem o ambiente), uns duendes de capuz vermelho, bem na ideia psicodélica setentista. O Rick Wright é muito maravilhoso, vocês deveriam ouvir.

Remember a day before today
a day when you were young
free to play along with time
evening never comes

Esse texto não tem motivação não, tá.