segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Paint it, black

Num dia muito querido e especial, no fim de uma semana terrível, sonhei que eu morria.

Estava em alguma estação de metrô, esperando na plataforma de frente para onde estaciona a última porta do último vagão. Algo acontecia que eu devia me abaixar, junto com os usuários que me acompanhavam, para não bater a cabeça em uns ferros que vinham em alta velocidade junto com o trem, como se fosse a brincadeira de "vivo ou morto", a mesma lógica.

Assim como no jogo, a gente às vezes erra e morre onde era para viver, ou vive onde era para morrer. Eu morri.

O ferro furou meu crânio e esmagou meu cérebro, não senti dor. Senti o sangue negro escorrendo dentro da minha cabeça, pintando minha visão de preto de uma maneira muito tranquila, onde eu percebia que estava morrendo e não sentia que ia cair, mas me sentia flutuar, como se apenas a minha consciência pairasse sobre o cenário e o corpo não fosse mais nada.

O início dessa música ilustra o líquido escorrendo e pintando tudo de preto. A letra, ilustra meu mês de agosto. Paint it, black.
I look inside myself and see my heart is black
I see my red door and must have it painted black
Maybe then I'll fade away and not have to face the facts
It's not easy facing up when your whole world is black

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Três de um par perfeito (tag: 3 coisas)

Gostaria de não ficar apenas respondendo coisas por aqui, mas a vida está angustiante demais para eu escrever textos que não sejam em minha caderneta vermelha. E como já expliquei, não sei muito bem mais como é escrever sentimentos de forma direta, clara ou interessante.

Lendo o BEDA de algumas blogueiras que sigo*, encontrei essa tag/meme "três coisas", então vou responder rapidinho, porque tem umas questões felizes que talvez me animem nesse mês que detesto tanto (curiosamente, mês do historiador - 19 -, do Animal Farm - 17 -, e do filósofo - 16).

  • 3 coisas que me dão medo:
  1. mariposas
  2. baratas
  3. cogumelos (vivos - lembrando que são fungos)
  • 3 coisas que me dão preguiça
  1. arrumar a minha casa (porém sou organizada fora dela)
  2. sair (moro longe de tudo, sou caseira)
  3. multidões (detesto aglomeração)
  • 3 coisas que eu gosto
  1. ler
  2. trabalhos manuais (de costura a marcenaria)
  3. dançar forró
  • 3 coisas que eu sei fazer
  1. bordar (envolve ponto-cruz, tricot e crochet)
  2. entender até certo ponto a linguagem html e de programação
  3. bolo de laranja
  • 3 coisas que eu não sei fazer
  1. praticar esportes
  2. conversar sobre assuntos corriqueiros
  3. começar atividades cedo para terminar antes do prazo (tudo de última hora, literalmente)
  • 3 assuntos preferidos
  1. história
  2. música
  3. luta de classes
  • 3 assuntos que eu não gosto de discutir
  1. seriados
  2. literatura, filmes e música atuais
  3. política, quando caímos no lugar-comum do reacionarismo brasileiro e sobretudo paulistano, me dá enguio
  • 3 cheiros preferidos
  1. madeira seca queimada (me lembra o sítio de meu avô)
  2. roupa lavada, engomada e que quarou no varal (me lembra sítios num geral)
  3. tinta, querosene, removedor, aguarraz
  • 3 cheiros que eu detesto
  1. perfumes doces e florais (porém amo perfume amadeirado)
  2. fósforo
  3. gasolina (enjôo)
  • 3 melhores comidas
  1. arroz + feijão preto + ovo frito com gema mole e clara tostada + farinha
  2. sopa de feijão
  3. carne/frango/peixe cozido com batatas (batata é uma maravilha, só detesto a palha e as industrializadas, tipo ruffles)
  • 3 piores comidas
  1. muita fritura
  2. industrializados
  3. carnes com gordura, pele e/ou nervos
  • 3 piores redes sociais
  1. twitter (possuo, quase apagando)
  2. facebook (possuo, querendo apagar)
  3. tumblr (adoro o tumblr, mas ele trava demais e não consigo acessar)
  • 3 melhores redes sociais
  1. telegram (com stickers e gifs, nem sinto mais falta do msn)
  2. vk.com (é russo, mistura de facebook com orkut, dá para ouvir música lá dentro)
  3. blogger (vou considerar como rede social)
  • 3 melhores bebidas
  1. café
  2. cachaça (Ypióca e 51 não prestam)
  3. suco de laranja sem açúcar
  • 3 piores bebidas
  1. cerveja
  2. tequila
  3. água com gás
  • 3 coisas que me acalmam
  1. rock progressivo e música clássica/ gregoriana (solos de guitarra, contrabaixo nas notas mais graves, e órgão, de tubo ou não)
  2. árvores e vento
  3. deitar na cama para dormir depois de um dia interminável
  • 3 coisas que levam todo o meu dinheiro
  1. livros
  2. cadernos (parei com as canetas, graças ao bullet journal, agora só lápis)
  3. café
  • 3 coisas em que eu não gosto de gastar dinheiro
  1. transporte privado (a passagem do público já é cara demais)
  2. balada (bar com cover de classic rock ou bar normal com cachaça e cadeiras tá ótimo)
  3. sapatos
  • 3 coisas que me estressam
  1. direita e seus derivados (com opinião sem argumentos sólidos e/ou argumentum ad hominem)
  2. não-interpretação das coisas direito
  3. quando alguém diz para eu fazer algo (ainda mais se já estou fazendo esse algo; paro de fazer só porque "mandaram"fazer) e/ou conselhos não solicitados
  • 3 coisas que eu vou fazer essa semana
  1. trabalhar no sábado
  2. estudar os textos para o tcc
  3. me iludir e ter paranoias dostoievskianas
  • 3 coisas que eu fiz na semana passada
  1. comprei presentes (foi inútil e me arrependo)
  2. dei banho nas cachorras
  3. quebrei meus óculos
  • 3 coisas que quero fazer em breve
  1. ter uma companhia para beber e etc., não que isso seja uma (in)direta para alguém (leia deste modo)
  2. escrever artigos independentes
  3. organizar local de estudo em casa (tá uma zona e me prometo isso há anos)
3 coisas que eu deveria fazer em breve
  1. novos óculos (esperando oftalmologista disponível)
  2. leituras para o tcc (tá difícil sem o item 1)
  3. resolver questões pessoais complicadas que estão me deixando pior do que jamais estive; porém sigo racional
3 coisas que não quero fazer
  1. o item 3 da questão anterior
  2. dizer meus sentimentos para a companhia do item 1 da questão anterior da anterior
  3. continuar tendo redes sociais (me é nocivo, não aguento mais os assuntos, as gírias, as polêmicas, os trendings, a sociedade como um todo, a bolha on-line, a modernidade líquida, o admirável mundo novo)
Infelizmente percebi com essas respostas que me é muito mais fácil elaborar respostas negativas e do que "não gosto", do que dizer sobre aquilo que aprecio e admiro em mim e na vida. Sei que existe, mas a mente vira uma tela em branco na hora de me expressar. Já os rancores, na ponta da língua e pulsando na mente. Foi divertido, no entanto! É quase um planejamento e reflexão do que sou, fui e serei. Quem sabe renove esse texto daqui um tempo e me descubra totalmente diferente do que sou hoje?


He has his contradicting views
She has her cyclothymic moods
They make a study in despair
Three of a perfect pair


* Referência de onde tirei esse meme/tag: Hello Lolla, Vois des fleurs, A life less ordinary.

P.S.: estou sem óculos, atrasada, com fome e cansada de revistar este post. É possível que mais tarde ocorra alguma mudança, então não tratemos (nunca) como opinião formada sobre tudo e sobre o que eu nem sei quem sou.

domingo, 16 de julho de 2017

Liebster award

Regras

Escrever 11 fatos sobre você. ✔
Responder às perguntas de quem te indicou. ✔
Indicar de 11 a 20 blogs com menos de 200 inscritos.
Fazer 11 perguntas aos blogs indicados.
Colocar o selo do Liebster Award. ✔
Linkar quem te indicou: Mia (Wink). ✔

11 fatos sobre mim

1: Amo e defendo todas as ciências clássicas – isso é já uma crítica séria e veemente contra aquela piada desgraçada de internet de “não sei, sou de humanas”. Sou completamente de humanas – curso e trabalho com história, museologia, biblioteconomia e possuo livros em sua maioria de filosofia -, mas minhas melhores notas na escola eram em matemática, que amo também, e que está presente na natureza, no universo, e na música.

2: Amo o silêncio. Tem sido um assunto recorrente essas semanas: como tanta gente se desespera para falar, alto e constantemente, e como fico desesperada em ter que ouvir, quando a única voz que quero ouvir é a minha, dentro da minha própria cabeça, ou nem isso. Apenas o vento. Barulho me deixa irritada, faz com que minha cabeça comece a girar, girar e girar, a pessoa fala um assunto, e desse assunto nada mais me lembro. Não há concentração ou interesse. Existem brigas familiares por incompatibilidade de gênio aqui em casa, infelizmente.

3: Não assisto séries. Já assisti, não consigo mais. Tenho algumas – poucas – que me interessam, mas não tenho paciência de acompanhar. Talvez acompanharia apenas True Detective, que achei acima da média; e The Borgias, porque merece. O resto, ou me irrita o hype - sempre ele -, ou silencio as hashtags no twitter, ou deixo pra lá.

4: Pretendo seguir carreira acadêmica em paralelo com minhas atividades atuais, que são ligadas à pedagogia (coisa que aconteceu por obra do destino, parece). Tenho interesse em pós-doutorado e além, mas adivinhem: detesto o ambiente acadêmico e o elitismo, hierarquia que correm soltos por lá. Fora os problemas internos da educação, que nem vou comentar pois esse post já está muito nervoso quase sem querer.

5: Não sei escrever de maneira poética, sentimental, romântica, fictícia, pessoal. Sabia, na adolescência; parece até que eu era mais corajosa aos 16 anos que aos 25. Tudo que escrevo tem ficado tão sério, que o que de pessoal existe transparece nas referências e no meu desejo de defender aquilo que gosto, ou de ofender aquilo que detesto. Sinto certa saudade da crueza em dizer sentimentos, sem misturá-los com a razão, e sem me importar com vírgulas no lugar certo e sinônimos para palavras recorrentes.

6: Esse ano aprendi a me apresentar em seminários, ou melhorei uns 60%. Mas no último, que apresentei sozinha, eu chorei. Porque era um assunto muito especial, que espero mostrar aqui até dezembro. Posso adiantar que estava citando uma estrofe da música Cidadão: a voz sumiu e veio o choro. Mas aquele choro que nem lágrima sai, de tão complicado.

7: Falando em chorar, fui duas vezes em show de Elba Ramalho. Sou mais fã do , mas não sei o que me dá com aquela mulher maravilhosa que eu choro. Na primeira vez, o motivo se misturava com saudade de mamãe e raiva de um dia muito ruim; na segunda, foi realização, alívio, orgulho, e admiração mesmo. A voz dela é tudo o que a gente ouve e mais um pouco. A danada ainda toca violão e triângulo. Parece que já foi baterista na juventude.

8: Não há lugar nesse mundo que eu ame mais que o Nordeste brasileiro. Me sinto parente de gente que nem conheço e sequer chegarei a conhecer um dia; tenho um breve desgosto por não ter nascido exatamente lá, mas o amor é tão grande que nem dói de verdade. Então alio minha luta de classes com meu nordeste, que tem o céu tão lindo e enorme que parece que está caindo na cabeça da gente. Quem não conhece, caso tenha oportunidade – e luto para que todos tenham oportunidades -, visite. Por favor.

Uma publicação compartilhada por jack passos (@passosos) em

9: Do mesmo modo, sinto a América Latina presente em mim mais do que a ideia patriótica de ser brasileira. Amo meu país, claro. Mas jamais fui patriota. Contudo, aquele negócio no peito da gente, que imagino que os patriotas queiram que a gente sinta, eu sinto pelas terras de língua latina no continente americano.

10: Toda noite sonho com transporte. Não tem absolutamente nada a ver com a atmosfera desse mundo, nem com as cinco horas diárias que passo pra lá e pra cá em São Paulo. Sempre sonhei com transporte, sem nem sair de casa todos os dias. Já sonhei com bairros e estações que inexistem, lojas de comércio, cidades; sempre estou em vagões de trem ou metrô, onde só o nome da estação se equipara à realidade. O restante minha mente inventa – ou viaja para outros mundos, quem sabe. Já dirigi, pilotei avião, estive em vagão de trem do século XIX acendendo lâmpadas incandescentes, tive um piripaque numa estação, criei ligações diretas entre Ipiranga e Pinheiros, e um bairro inteiro na extrema Zona Leste, com direito a visitar vários estabelecimentos. Sonhos recorrentes com papelarias também acontecem, e fantasmas, casarões e livros têm medalha de bronze. Mas eu sonho, todas as noites.

11: Nada de miga, mana, flor, amor, fia: me chame pelo nome. Não acredito em deboísmo, pacifismo, good vibes, #pas e gratidão 🌸. Sobre tudo isso: tô fora, pego meu coração peludo e vou embora.

11 perguntas da Mia

1. Qual livro você gostaria de ter escrito?
Acho que gostaria mais de escrever meu próprio livro do que ter escrito um livro que já existe. Talvez se fosse eu escrevendo qualquer obra que hoje admiro, o sentimento por ela seria diferente, porque eu teria tudo aquilo em mim, os rascunhos, as horas de desespero, cansaço, encheção de saco do editor, críticas ruins dos leitores, gente que interpretou errado. Para tanto, vou deixar um pensamento do David Gilmour; é sobre música, mas é um ponto de vista do lado de lá: qual disco você gostaria de não ter composto? Acho esse pensamento dele muito forte: participou de um dos maiores discos do século XX (nem adianta contestar, ficou 15 anos nas listas da Billboard 200; isso são 917 semanas), mas vai morrer sem saber como é o impacto de ouvir toda a obra pela primeira vez. Porque ele viveu os bastidores e os spoilers musicais todos – que muito fã gostaria de ter vivido, e eu, pelo mesmo motivo dos livros, não gostaria não.

fonte

2. Você tem/teve animais de estimação? Conte uma história sobre ele ♥

Já tive papagaio, galinha, ‘rolinha’, sabiá, pombo, calafate, e agora possuo duas gatas e duas cachorras (Nininha, Bella, Maggie e Nina – a Nina já veio com esse nome, por isso a coincidência com o nome da gata, que é no diminutivo mesmo). Poderia dizer mil histórias sobre elas, mas digo o mais curioso e corriqueiro: Nininha, mãe de Bella, bate nela toda vez que se esbarram. Às vezes lambe, mas só se não tiver humanos por perto. Fora isso, só porrada. As cachorras correm atrás de gatos, menos dessas duas. Morrem de medo delas, especialmente de Nininha, que já apartou uma briga das cachorras batendo em todas elas.

3. Você coleciona alguma coisa? O quê?
Livros. Infelizmente no sentido acumulador da coisa, mas a biblioteconomia tem me salvado. Ganhei muitos livros nos últimos 16 anos, de “descarte” de gente rica do prédio em que meu tio trabalha. Por apego, fiquei até com as obras que não me interessam diretamente, e tenho lutado contra a umidade na minha casa, então está sendo perigoso manter uma coleção tão grande. Vou descartar alguns, e doar outros, em melhores condições. Até porque continuo comprando.

4. Qual é a história do nome do teu blog?
Acredito que tenha sido porque já havia decidido que faria faculdade de História. Então tem toda uma característica de o passado diz coisas, civilizações antigas, pensamentos que foram aperfeiçoados ao longo dos séculos… já tentei mudar de nome quando pensei no velho mundo como a Europa diante do novo mundo, a América. Mas não me adaptei a outro nome de blog. Esse sobrevive desde 2008, com posts arquivados ou expostos.

5. E a história do teu nome? Sabe por que teus pais te deram ele?
Acho que minha tia sugeriu meu nome: Helen Cristina. Seria Juliana, a gosto do meu pai, mas ainda bem que segui sendo a tocha grega, personagem central da Guerra de Tróia, que motivou a briga entre Paris e Menelau. Seria briga pelo poder? Por amor? Alegoria? Não sei.

6. Se você pudesse ressuscitar qualquer figura histórica da humanidade, qual seria?


Marx, 1839, de I. Grinstein, 1961
Marx, 1839, de I. Grinstein, 1961

Marx, diante da sociedade atual. Sinto que poucos de fato compreendem um pouco de seu pensamento. E não é só na direita que devemos pensar, quando falamos a famosa frase "deturparam Marx". Muita esquerda também não colabora.

7. Qual foi o último livro que você leu?
O que é fascismo e outros ensaios, de George Orwell. Percebi com ele apenas uma coisa: preciso ler os autores citados por ele para entender o que está dizendo, porque fiquei um pouco perdida. Mas vale a pena: são relatos ao vivaço do que ele enxergou da intelectualidade durante a II Guerra Mundial.

8. O que você mais tem escutado nos últimos tempos?
Segundo minha last.fm, Vincent Gallo, John Frusciante, Pink Floyd, Black Sabbath, Metallica e Faith no More. Porém não só isso. Os dois primeiros, amo pelo talento e pela inspiração, escrevi um artigo no começo de junho e precisava bastante; ajudou demais. Floyd, porque não há como não ouvir. E as seguintes, porque amo contrabaixo e preciso de um classic heavy metal na minha vida, porque sou dura sem perder a ternura. Ah, e voltei a ouvir Red Hot Chili Peppers; tanto, que foi minha primeira playlist da newsletter, já viu?

9. Numa época de vlogs e newsletters, por que você ainda mantém um blog?
Porque marcou uma época. Porque me faz bem entrar num blog e ver um layout bonito e original, assim como textos interessantes, sejam eles tristes ou divertidos. E se o layout não me agrada ou faz meu computador travar, tenho o feedly como apoio. Por isso, não se esqueçam de ativar o feed/rss no blog de vocês, por favor. Tenho maior apreço por blogs com terminação blogspot.com. É como se fosse uma casa, como se estivesse visitando alguém muito modesta(o) e hospitaleira(o). O estilo de escrita é a marca inconfundível de um blog, mesmo que seu logo constantemente mude. Ainda assim sigo blogs com aparência e conteúdo clichés, quando um post ou outro me interessa.

10. Se você pudesse trocar de lugar com qualquer personagem de livro, filme ou série, com quem trocaria?
Elizabeth Bennet, acho. Porque basicamente meus personagens favoritos são todos uns azarados existencialistas, e já me vejo em atitudes de cada um, principalmente o próprio Dostoiévski; se não isso, são personagens sofredores da época do romantismo que se sacrificam e/ou suicidam por amor. Então seria bom ao menos uma vez ser uma moça inteligente, decidida, estudiosa, que ignorou um homem arrogante, e o fim quem leu/assistiu já sabe, quem não leu/assistiu, descubra.


11. Se sua vida fosse um filme quem seria o diretor?
Ingmar Bergman / Orson Welles / Dario Argento.

O Ingmar consegue mostrar questões da existência muito bem, sem ser óbvio como os chargistas políticos que fazem caricaturas com legenda; é meu diretor de filmes favorito e a morte d'O sétimo selo, e todas as questões levantadas no filme são essenciais para reflexão. Com ele e A flauta mágica tive outro olhar em direção à ópera.

Papageno e Papagena, melhores personagens
O Orson materializou o ambiente de meus sonhos - vide fato 10 - em O processo, com Anthony Perkins. Se fosse um filme surrealista, ou sobre meus sonhos, seria dele.

fonte
Dario Argento é um artista para o terror e para o giallo italiano. Também tem questões sobre a vida em Profondo rosso que pretendo tratar aqui mais tarde. Se meu filme fosse com cor, e com meu lado Dostoiévski e as notas do meu subsolo, meu diretor seria Dario Argento com sua parceria com o rock progressivo para trilha sonora. Anos 1970 e língua românica são meu espírito animal.

David Hemmings, Daria Nicolodi, Dario Argento
Já falei mais ou menos sobre os três diretores, o que mostra que sou condizente comigo mesma.

12. Você tem alguma pequena obsessão - por algum assunto, uma época, um personagem histórico...? Se sim, qual?
Assunto: luta de classes. Sempre tive tendência à contestação, mesmo que, na maioria das vezes, exprimida apenas mentalmente. Quando conheci o comunismo / marxismo, encontrei pessoas que, a despeito do tempo em que viveram e vivem, conseguem traduzir o que tanto questionei a minha vida toda, seja em sentimento, seja em opinião. Sigo estudando o tema, que de todas as questões políticas, é meu carro-chefe.

Época: meados de 1960 e 1970. Psicodelia e rock progressivo nasceram nessa época cheia de ditaduras pelo mundo. A arte se sobressaiu e, para o bem e para o mal, moldou e inspirou gerações. O mal, no caso é quando algo vira ingrediente para o lucro dos capitalistas, quando estes se aproveitam da subversão do jovem ao sistema e reformulam sua linguagem para vender seu produto mascarado de descolado ou, atualmente, desconstruído, explorando o discurso dessas pessoas para benefício próprio. (Estou querendo escrever sobre as bandas que apareceram a partir daí, fora do cenário da contracultura, um modo de empresários se aproveitarem da genuína rebeldia da juventude e usar como marca de bandas a partir do fim dos 1970 e toda a década de 1980, será que escrevo?). Onde podemos ver, na música, tais questões? Welcome to the machine e Have a cigar, entre outras.

What did you dream? / It's alright we told you what to dream / You dreamed of a big star / He played a mean guitar / He always ate in the Steak Bar / He loved to drive in his Jaguar / So welcome to the machine

Personagem histórico: George Orwell. Meu TCC da faculdade foi baseado nele e em A revolução dos bichos. Por mais que possivelmente passemos, futuramente, a discordar um do outro, jamais o esquecerei, esteve comigo num momento importante da vida que foi a realização de um trabalho acadêmico, mesmo que breve. Será meu parceiro [canceriano] em críticas à esquerda e ao sistema sempre.

* Minhas 11 perguntas são as 12 da Mia, achei excelentes e não estou com cabeça para criar perguntas, considerando que há uma semana estou montando esse texto e nada me veio em mente. Também indico a você que está lendo, já que as blogueiras que conheço foram previamente indicadas, e não possuo muita intimidade na blogosfera para tanto. Se responder, me passa o link que lerei, com muito prazer e curiosidade!

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Verão de sessenta e oito

a paz que me dá. fonte
Tinha acabado de sair do ensino médio, então mal conhecia os discos, e se os ouvia era sem muita atenção - não costumo buscar ou saber letras de músicas que ouço, e mesmo ouvindo mil vezes não decoro a letra (inclusive Raul Seixas). Por acaso coloquei Atom heart mother pra tocar num final de tarde, enquanto fazia umas tarefas domésticas. De repente, de distraída passei a prestar atenção na melodia de Summer '68. Tem gente que lembra a primeira vez que ouviu o The dark side of the moon e de como foi o impacto. Comigo foi Summer '68. Tinha certeza de que era especial. E é. Praticamente me lembro do clima e do sol se pondo naquele fim de tarde.

Não sei ainda por qual motivo acabo adorando músicas de despedida de casais espontâneos (ou artista mais groupie/caso de viagem), aconteceu com Free bird no último post, e com Stay, também do Floyd, composta por Waters e interpretada pelo querido Rick (talvez eu saiba, só que para dizer demoraria dias). Mas nem é tanto pela letra (que é de uma delicadeza inexplicável), é pelo Rick, é pelo arranjo, é pelo grave do piano.

Quando criança queria ser três coisas, que eu chamava de PPP (não é Projeto Político-Pedagógico nem - deus me livre - Parceria Público-Privada): Professora, Pianista e Pintora. Consegui mais ou menos dar aulas meio sem querer querendo. Tive horror à licenciatura, mas nunca trabalhei, desde meus 16 anos, num local sem crianças. E ainda bem, as amo e as quero ajudar e compreender. Pintora? Bem, já pintei um quadro que se estragou na chuva e adoro desenho, xilogravura, estudar arte e design, mas nada muito profissional; até o fim da década é possível que me aventure no técnico em comunicação visual. Agora pianista, se Deus quiser, um dia. Preciso.

Enquanto não sei nem toco piano, órgão ou contrabaixo, ouço com a maior fé do mundo minhas canções favoritas, bela e sutilmente doloridas. As do Richard Wright, tecladista do Pink Floyd, são meu xodó. O "disco da vaca", mesmo possivelmente rechaçado pela própria banda, é um de meus favoritos dela. Pela Summer '68 e por ela ter me acompanhado o caminho para a faculdade de 2011 a 2013, pelas ruas de Itaquera de manhã cedo. Por ter comprado o disco original na livraria toda serelepe enquanto meus bebês do Museu Escola escolhiam seus livros favoritos e praticamente corriam por entre as estantes de tamanha felicidade. Pelo final psicodélico da adolescência que tive lá por 2011/12. Pelo cover que fui da banda e fui agradecer o tecladista por tê-la tocado (o Renato Moog é massa demais).

Prometo que começo a escrever mais tecnicamente e com história, fontes, sinopses e indicações, afinal, meu propósito de vida é falar sobre música. Deixa só a inspiração parar de aparecer de madrugada. Enquanto isso, conheçam a LuluBelle e se atentem aos graves do piano, eles são muito importantes.

sábado, 22 de abril de 2017

Simples e livre como um pássaro

os 7 cabeludos topper no encarte de Nuthin fancy, 1975.
Tenho a mania de dizer que esta ou aquela é minha música favorita, tanto que minha last.fm somou 1.383 faixas com o coraçãozinho marcado. Todas elas o são por algum motivo. Aliás: todas as músicas que ouço são ouvidas por algum motivo. Não sei ouvir sem auxílio da memória, de lembranças, e talvez por isso seja tão difícil para mim aceitar lançamentos, e tão fácil amar hoje o que odiava em 1996.

Esse post está saindo antes do que um que deixei em rascunho semana passada, mas imagino que será mais curto e simples, então bora lá.

Em algum momento na minha vida me apaixonei por duas músicas do Lynyrd Skynyrd, ambas do disco que nos ajuda a dizer o nome da banda: Pronounced Leh-Nerd Skin-Nerd (1975). Mas assim: me apaixonei mesmo. Porque, assim como as músicas do próximo post, ou talvez mais, elas me colocam nos eixos daquilo que decidi que sou, fui e vou.
'Cause I'm as free as a bird now
And this bird you cannot change

Free Bird
Aquele tipo de melodia e letra que nos faz observar o horizonte com a vista embaçada lembrando momentos aleatórios da vida, sobretudo da infância, que parecia causar emoções mais puras e intensas. Me lembro de passear com meus pais e, na volta, observar a cidade à noite e sentir um profundo medo da imensidão da vida e acabar caindo no sono. Lembro das promessas da adolescência de nunca, jamais deixar os "adultos" provarem estar certos sobre todas as vezes que me diziam "isso passa", "eu também pensava assim", "as coisas não acontecem desse jeito", "é só uma fase" e n desmotivações e conselhos que eu ouvia engolindo um ódio descomunal que sinto até hoje. Porque, veja bem, sou muito rancorosa (ou, melhor dizendo, minha memória é boa até demais para situações desconfortáveis que lembro limpidamente de angústias desde 1995) e pior (ou melhor): quando me dizem que não posso algo, dou um jeito de poder. Porque não acredito no impossível e não admito que me digam que vida devo levar.

Versão ao vivo com a formação original da banda 3 meses antes do acidente
[observem esse solo de guitarra pelo amor de deus]

Escrevendo aqui me dei conta de certas coisas que me seriam impensáveis na adolescência, que são questões meritocráticas, sociais, políticas, econômicas, e tudo aquilo que discutimos seriamente (ou não) todos os dias. Mas não é bem por aí que gostaria que vissem o que essas músicas me trazem. É bom analisar sob todas as formas, mas a de hoje não é essa. É questão mesmo de quando você se deixa levar pelos outros e se cala para o conforto da família, dos amigos, dos colegas de trabalho, do que é "normal"; de se prender a pessoas e situações pelo que os outros vão achar. Nos calamos em vários momentos da vida, mas há diferença entre se calar apenas por calar, e se calar para fazer suas coisas do seu jeito sem alardes e obter êxito caminhando por atalhos no que for possível, provando assim que aquilo era realizável, etc. É sobre princípios, ideais, e essas coisas.
Oh, be something you love and understand
Simple man
Até porque, sempre tento me lembrar de que a vida é uma só, e se tem uma pessoa que nos acompanha nela 100% do tempo, até a morte, somos nós mesmos. Viver o que o outro espera não faz sentido, nem é saudável. E para eu me dar conta de que ainda sou eu, e poder reavaliar o que fiz e farei, são essas músicas que ouço. São momentos de reflexão e, até o momento, satisfação. Essas duas músicas são como alguém me perguntando se está tudo bem, e eu respondendo com a sinceridade que não tenho para quando sou perguntada: é, está sim. Foi assim que não desisti daquilo que acredito, e em vez de deixar isso pra lá, com tantos péssimos conselhos que existem por aí, eu simplesmente busco maneiras e argumentos para me provar. Para mostrar que sou possível, que sou assim e que quero as minhas coisas assim. Podia melhorar, claro. Mas aí a questão já será mais política e para outro post.


versão de estúdio, 1973

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Ingmar Bergman's Höstsonaten (Autumn Sonata - 1978)






Liv Ullmann

domingo, 12 de março de 2017

Dramas, romance e giallo no último carnaval

Assisti a vários filmes no feriado. Escolhi os títulos despropositadamente: um foi indicação de um site, outro fazia parte dos meus planos porque era o último que faltava para eu ver com trilha sonora do Pink Floyd; outro, ainda, era a última história das três da Jane Austen que li; e o último, simplesmente porque gosto do diretor. Mas eles têm algo em comum, e vou listá-los, indicando a vocês. Gostei de todos, então não esperem notas.

Por ordem de visualização:

2007 - Persuasion (Persuasão)

Por obra do destino, o capitão Frederick Wentworth (Rupert Penry-Jones) retorna à vida de Anne oito anos depois que a família dela a aconselhou a não aceitar o pedido de casamento dele. Ocorre que Wentworth está rico e rodeado de belas mulheres. Anne Elliot (Sally Hawkins) tem que frequentar os mesmos espaços que Frederick, amando-o em segredo por todo esse tempo, e ainda tem de lidar com as dificuldades financeiras de sua família.
Sinopse adaptada do filmow.

Meu primeiro contato com Jane Austen foi com este livro, que contém três histórias. Assisti na mesma ordem em que li. Vi spoilers no youtube e achei que seria terrível - era um vídeo feito por fã com cenas em câmera lenta e trilha sonora ruim como o Keny G, ou a emotional titanic flute -, mas não foi tão ruim assim. Razão e Sensibilidade me encantou mais, e Orgulho e Preconceito é lindo, sobretudo pelo Mr. Darcy (nem vou começar a falar dele); mas Persuasão não chega a ser um filme dispensável. Existe a versão de 1995, com um final melhor, mas não gostei muito da atriz.

1969 - More

Um jovem estudante viaja da Alemanha à Paris, quando aparece em seu caminho uma expatriada norte-americana usuária de heróina. Uma paixão avassaladora e sórdida contamina os dois, e juntos partem para a ensolarada ilha de Ibiza. Alucinações, drogas, amor livre e meditações fazem parte do dia a dia do casal. A trilha sonora foi composta integralmente pelos Pink Floyd e constitui outro ponto alto do filme. 
Sinopse do filmow.


Ja assisti Zabriskie Point de Michelangelo Antonioni e La Vallée, de Barbet Schroeder, que contém musicas do Pink Floyd - Careful with that axe, Eugene, e o disco Obscured by clouds, respectivamente. Estava ouvindo o More por conta de Green is the colour e lembrei do filme, também do Barbet, então assisti. Já vi fã falar mal desses filmes, mas eu gosto, e não por ser fã. Há neste situações que me irritam, mas é o tipo de filme que me conecta a outros espaços.

1972 - La prima notte di quiete (A primeira noite de tranquilidade)

Rimini, início dos anos 70. Daniele Dominici é um angustiado professor de literatura que se envolve afetivamente com uma de suas alunas. Será que esse amor irá preencher o vazio existencial de sua vida? Valerio Zurlini é conhecido, com razão, como o "poeta da melancolia". Este filme inesquecível é um dos seus trabalhos mais melancólicos.
Sinopse do filmow.

Aqui finalmente conheci Alain Delon e prrrrrllllll. Esse foi indicação de filmes sobre vazio existencial.  É uma história que, vista de maneira simples,  talvez pelo tempo tenha se tornado banal, como Janela Indiscreta, por exemplo. Em suas décadas devem ter sido impactantes. Como respeito muito o passado, isso não é problema. Mas tem bons diálogos e citações, questões. Se você acha que o que vem a seguir é spoiler, considere como aviso: esse filme tem tanto cigarro que deve desbancar uma película qualquer de Cheech & Chong (nesse caso é só tabaco). Não que eu me importe, realmente não ligo.

1971 - 4 mosche di velluto grigio (Quatro moscas sobre veludo cinza)

O músico Roberto Tobias está sendo seguido há dias por um homem que não conhece. Ao confrontá-lo num teatro abandonado, acaba matando acidentalmente o desconhecido, e no mesmo momento uma figura mascarada fotografa o crime. A partir de então, Tobias começa a ser perseguido implacavelmente por um vilão que não pretende matá-lo, mas enlouquecê-lo aos poucos com a lembrança da culpa do ato que cometeu. Quando novas vítimas passam a aparecer, as quatro moscas sobre veludo cinza gravadas na retina de uma garota assassinada tornam-se a única pista para desvendar o mistério. 
Sinopse no filmow.

É o terceiro filme da trilogia dos animais, de Dario Argento, atualmente meu diretor favorito. Antes há O pássaro das plumas de cristal e O gato de nove caudas, que vi também esses dias; fiquei muito contente de nele estar o Bud Spencer. Ele mais o Terence Hill participaram da minha infância vendo filmes do faroeste com papai.

Enfim, indico esses quatro filmes com histórias e gêneros distintos (romance, drama, giallo) porque foram sincronísticos para mim. Três deles têm cenas em locais litorâneos parecidos, dois deles a mesma atriz. E não fazia ideia disso. Vou mostrar em imagens:

Escadas, vento e maresia na Inglaterra, Espanha e Itália
Mimsy Farmer

sábado, 21 de janeiro de 2017

67 anos sem George Orwell

George Orwell em 1946, fotografia de Vernon Richards

Há poucos anos sequer imaginava a existência de Eric Arthur Blair, e anos antes, pior: não entendia seu propósito com o livro que depois se tornou um de meus favoritos.

Nasceu em Motihari em 25 de junho de 1903, quando a Índia ainda fazia parte do império britânico, de uma família inglesa de classe média. Sofreu como bolsista na "cara e esnobe" escola São Cipriano e passou um tempo com vagabundos ingleses, dormindo em albergues e relatando, como jornalista, como era a dinâmica de quem assim de fato vivia, por não ter emprego e seus direitos ignorados. Como morrem os pobres e outros ensaios conta essas e outras histórias, inclusive uma que me encantou pessoalmente: algumas reflexões sobre o sapo comum.

Lutou na Guerra Civil Espanhola (1936-39) junto ao P.O.U.M. - Partido Operário de Unificação Marxista. A partir da luta, escreveu Homage to Catalonia, ou Lutando na Espanha - seu relato de guerra. Nessa guerra também lutou Angelines Fernandez, a Bruxa do 71. Todos contra os fascistas, obviamente. Mais pessoas que participaram da luta e me são caras: Gerda Taro, Robert Capa, David Seymour e La Pasionaria - os três primeiros fazendo inacreditáveis registros fotográficos por toda a Espanha.

Mas Orwell, que na verdade é um pseudônimo de Blair, ficou conhecido pelas distopias que denunciavam o totalitarismo e a privação de liberdade de imprensa e pensamento, mas que muitas vezes foram anunciados erroneamente como obras simplesmente anti-comunistas. Orwell era de esquerda, anti-stalinista.

Comecei a leitura com 1984. Uma distopia sobre Oceânia, onde vive Winston Smith, cercado por cartazes do Grande Irmão (Big Brother não é por acaso), ciente de tudo o que acontecia vigiando a população com a Teletela, com vizinhos e parentes se denunciando por crimes de pensamento e a sociedade sendo moldada pela manipulação histórica e de notícias, conforme convinha ao Grande Irmão. Ora Oceânia era amiga da Eurásia e inimiga da Lestásia, ora o contrário. Smith era encarregado de sumir com notícias, alterações que não eram percebidas pela população, que esvaziava suas frustrações diante da imagem de Goldstein, o Inimigo nº1 d'O Partido, nos Dois Minutos de Ódio. Winston passa a prestar atenção no que acontece ao seu redor, e o resto pode ser conferido no livro, que teve dois filmes representando-o, em 1956 (muito modificado) e em 1984 (John Hurt ♡ e trilha sonora de Rick Wakeman).

John Hurt, falecido dias depois desse texto

A leitura foi começada três vezes. Na derradeira, era meu último ano de faculdade e eu não tinha pensado ainda no artigo de conclusão de curso. Bom, tinha assistido (e odiado, por ignorância minha) A Revolução dos Bichos (1999) no final do ensino médio, e como fã de Pink Floyd o tcc tinha que ser sobre a banda progressiva. E foi. O disco Animals (1977) é baseado no livro favorito de todos os tempos:

A Revolução dos Bichos (Animal Farm - a fairy story) é uma fábula distópica sobre os animais de uma fazenda que tomam o poder, expulsando os fazendeiros humanos. Mas esse poder é usurpado pelos porcos, que tendo os cães como polícia de seu governo totalitário exploram o restante dos animais e passam a fazer negócios com humanos de fazendas vizinhas. Desses animais, as ovelhas são a massa que termina de validar esse governo. É alusão à teoria de Marx (Major), levada adiante por Bola de Neve (Lenin) e corrompida por Napoleão (Stalin) com a ajuda do porco marqueteiro (por assim dizer) Garganta. Escrevi sobre isso e todo o resto da minha vida relacionada à escrita parte disso de 2013 até o presente.

Pretendo ler Lutando na Espanha e tudo o que mais tiver sobre Orwell. E esse texto é uma ligeira bagunça apenas para linkar as obras dele, disponibilizando brevemente para vocês, não deixando esse dia passar em branco.

Fotografias de George Orwell por Vernon Richards em 1946.
Romances, ensaios, artigos, poemas em inglês nesse site russo.
Algumas obras em português, grátis
Meu artigo no Academia.edu

domingo, 15 de janeiro de 2017

Journey to the centre of the earth

By horse, by rail, by land, by sea, our journey starts...
Nota: Aconselho que já ouçam o disco enquanto leem (está incorporado parágrafos abaixo), porque em algum momento desse texto conto spoilers, e gostaria que sentissem a surpresa pura que senti, como se não houvesse internet nem ninguém me indicando. Espero que sintam pelo menos um pouco do que senti, pois já será muito.

Domingo (8 do corrente) estava de bobeira vendo coisas guardadas no quartinho aqui de casa e fui mexer nos vinis, buscando encontrar algo interessante que ainda não tinha visto desde que os ganhamos. Achei uma capa amarela que indicava ser a trilha sonora de um filme e tinha alguns clássicos do rock. Abri o disco por curiosidade e percebi que o conteúdo nada tinha a ver com a capa: li Rick Wakeman - journey to the centre of the earth.

Rick Wakeman em The Battle, uma das partes favoritas

Para quem não sabe, Rick Wakeman esteve e saiu da banda de rock progressivo Yes como tecladista várias vezes, e é um músico erudito de qualidade indizível. Quando comecei a ouvir Yes, foi na época que comecei a ler George Orwell. Em 1984 fizeram um filme de Nineteen Eighty-Four com o John Hurt como Winston Smith, e eu, por ter gostado do filme, quando vi que Rick Wakeman fez sua trilha sonora, baixei. Mas ficou por aí, e esqueci da discografia dele.

Acontece que comecei 2017 decidida a ouvir mais rock progressivo, ainda mais porque vi o Lineu sentindo a pulsação do baixo de Roundabout. E ouvir Yes depois de tanto tempo me fez lembrar de que passei a ouvir a banda a partir do filme Buffalo '66, que tem uma das cenas finais com música do mesmo disco, Heart of the sunrise. Falei desse filme na última postagem. Pois bem: era um terceiro sinal de que eu estava no caminho certo.

Desci as escadas e botei o disco na vitrola, rezando para não ter arranhões, porque casa de ferreiro, espeto de pau: trabalho em museu, mas minha casa é uma bagunça, e o disco esteve por anos mal armazenado. O disco começa com aplausos. Depois uma voz suave de Gary Pickford-Hopkins, acompanhado de Ashley Holt, que acabo de descobrir ser integrante de uma banda que desconheço, Warhorse.


Vou deixar o disco aqui pra vocês, é curto demais, não dá metade do caminho para meu trabalho. Cada lado do disco são duas músicas: The Journey, Recollection, The Battle e The Forest. Journey to the centre of the earth é uma história daquele que inspirou Santos Dumont para concretizar seu sonho de voar: Jules Verne. Escrita em 1864, tem como narrador nesse fabuloso disco, ninguém menos que David Hemmings, o homem com uma voz tão deliciosa quanto a de Stephen Fry, o homem que foi papel principal no já falado Profondo Rosso, um ano depois. Aquele filme de terror favorito com trilha sonora de Goblin.

David Hemmings em Profondo Rosso (1975)

Como diria Fausto (Silva), quem sabe faz ao vivo! E foi isso mesmo que Rick e seus talentosos camaradas fizeram: com orçamento baixo, só conseguiram apoio da gravadora gravando o disco num concerto pago ao vivo com a Orquestra Sinfônica de Londres no Royal Festival Hall, em 18 de janeiro de 1974.

Descobri que a chefia lá no museu não só tem esse vinil, como contava para a filha, quando pequena, a história de Verne mostrando o encarte do CD, que o marido também tinha. Olha, vou ser sincera com vocês: já baixei esse livro em 3 idiomas diferentes (mal falo inglês, quero me meter com o francês, assim, na marra). Tenho, além do vinil, o disco no meu celular e de domingo pra cá ouvi pelo menos 2 vezes por dia. Já dancei com a minha gata, minha mãe já dançou, já recitei e cantei (nunca canto, sabe). Já dancei no ponto de ônibus. Quando vi que acabava também em aplausos, quase aplaudi e chorei junto.

Agora esse parágrafo pode conter algum spoiler, e vai em especial para a Mia, mesmo que ela não se interesse pelo disco:
  • Em The Forest há um trecho de In the Hall of the Mountain King, de Peer Gynt, do Edvard Grieg, baseada na obra de Ibsen. (Também posso ou não ter começado a ouvir as 2 suites pelo menos 2 vezes ao dia);
  • No ano seguinte, 1975, teve o filme (que ainda não vi) Lisztomania, com trilha sonora e participação dele mesmo (Rick);
  • Ele teve a magnânima ideia de fazer discos progressivos (e que discografia!) contando histórias a partir do momento em que seu pai o levou para ver Pedro e o Lobo, de Prokofiev.

Liszt. E Prokofiev. E Orwell (1984). E Grieg. E Verne.

Não sei vocês, mas entrei numa jornada que não tem volta.

Jules Verne: Voyage au centre de la terre (francês) (inglês) - ebook grátis na Amazon.
Julio Verne: Viagem ao centro da terra (português, adaptado).
Mais de Jules Verne grátis.
Rick Wakeman: Journey to de centre of the earth - live performance with the Philharmonic Orchestra in 1975.