18 de dez de 2017

Nesta vizinhança sou filha bastarda

Hieronymus Bosch - O jardim das delícias terrenas, 1504.
2017 foi um ano estranho. Tudo de pior aconteceu com coisas boas acontecendo por dentro. Ou pelas beiradas. Preciso começar dizendo que, muitas vezes em minha vida, principalmente quando se tratava do meu pai, minha mãe e minha irmã costumavam dizer que eu sempre agia diferente dependendo de com quem eu tratava. Pois bem. Nunca achei ruim, me defendi - ou criei uma desculpa para mim mesma - dizendo e pensando que para cada pessoa há um trato. Textos exotéricos - genéricos - dizem que quem tem libra no mapa astral costuma ser muito sociável e diplomático. Quem tem câncer, então, costuma saber manipular. São, respectivamente, minha lua e meu sol. Eu culpo os signos mesmo, para não ter que culpar a mim mesma por não conseguir mudar ou ser como se deve.

2017 começou ruim, porque começou com pendências de 2016. Há pessoas na internet se achando muito sábias ao dizerem aquela tal "novidade" que esperar que o ano acabe é um pensamento idiota e que a vida não muda. Olha, muda sim. Só pelo simples fato de termos calendários milenares, fases da lua, posição dos astros, rotação e translação da terra e mudança de estações. As pendências podem virar a página do calendário conosco, mas é um novo ciclo sim, nosso corpo percebe isso, e sua chuva de likes não muda este fato.

Posto isso, 2017 foi um ano de término de relações, quebra de laços. Começou por minha culpa e terminou por meu senso de justiça. Este meio não é simples de explicar, mas não posso fingir que não aconteceu. No mesmo ano, reconectei-me com pessoas do passado e me empolguei bastante, conheci pessoas novas - ontem mesmo! - e queridas, me senti esquecida, e esqueci também.

Em 2017 apaguei de vez meu twitter. Cansei das pessoas de lá. Cansei mais das bolhas esquerdistas cirandeiras good vibes gratidão sororidade do que dos piores trolls da história da humanidade recente, reavivadores de pragas preconceituosas horrorosas. É como se eu estivesse, nos últimos cinco anos, indo do centro do espectro político, caminhando paulatinamente para a extrema esquerda e pulando no penhasco do plano cartesiano, para o sul de lugar nenhum. Sempre tive problemas com gente, independente ou até mesmo por causa de sua posição política e da quantidade de sua externalização de simpatia, antes mesmo de saber ler. Continuo seguindo comunista, mesmo que comunistas possam vir atestar que não o sou: neste aspecto, só confio em Marx e nada mais.

Dizer especificamente o que estou tentando explicar pode ser um problema: nunca cometo pequenos erros enquanto eu posso causar terremotos. Inclusive, um dos motivos de eu pegar ranço de twitter é justamente a péssima interpretação que as pessoas têm, não importa se elas votam em Bolsonaro ou curtem vídeos do Gregório Duvivier. Se elas são estudantes que querem prestar Fuvest para a famigerada FFLCH ou se são engenheiros civis com pós-doc. Então deixa pra depois.

Apesar da humanidade, me descobri frágil. O robô, o encoleirado que eu adorava apontar, do Dahmer, também era (sou) eu. Fugi tanto de rotinas, padrões, coisas estabelecidas, que quando dei por mim estou vivendo assim mesmo. Inclusive é um spoiler da vida que vou dar aqui: fazer aquilo que se gosta não significa ter sucesso acima daqueles que fazem as coisas por obrigação e sobrevivência. No final das contas vamos todos morrer mesmo, e os sonhos realizados também entediam. Isso está escrito em músicas, livros e séries. E mesmo nos contos de fadas! O fim é o felizes para sempre, imagina ser feliz para todo o sempre, sem poder modificar um instante sequer, sem poder variar um sentimento sequer? Quantas vezes nos perguntamos o que há depois do final feliz? Eu estaria numa pior se a vida fosse resolvida. Que mais absoluto tédio.

André Dahmer - Malvados
Meu sonho, na faculdade, era "subir" todos os degraus da academia. Isso há quatro anos atrás. Fui em simpósios, escrevi artigo, mas sempre incomodada. Porque as pessoas vivem em grupos. E detesto estar em grupos. As pessoas conseguem mestrados como se fossem bromélias e seus orientadores plantas que aceitam bromélias como parasitas. Tudo é por indicação. Você, se não é daquele grupo e não concorda com ele, é porque é do grupo contrário. Que preguiça disso. Que preguiça do modo como palestrantes discursam sobre "o lusco-fusco da revolução russa" na FESPSP às 21h da noite, com aquela voz arrastada, lendo um texto próprio - bem mal escrito - e se achando o máximo da genialidade. Que preguiça de ir comer na lanchonete de uma faculdade da qual não pertenço - nem conseguiria - e sentir um peso em meu cangote como se todos estivessem me olhando como acontece naquelas cenas sufocantes do Roman Polanski e do Orson Welles.
Roman Polanski - Repulsion, 1965
Falando em Polanski, aprecio a vivacidade com que vocês discutem sobre obra versus postura do artista. É uma boa pauta, de verdade. Mas é uma "bandeira" para a vida inteira. Dou boa sorte a vocês nessas questões, me privarei delas. Assim como me privei dos jornais. Dos comentários de portais. Da timeline que bloqueei no facebook. Das assinaturas que cancelei.

Houve momentos na vida que tinha certo receio de afirmar minhas coisas. Porque as pessoas cobram. Tanto cirandeiros como impeachmistas possuem a necessidade de querer censurar algo. Geralmente quando querem censurar algo aí é que esse algo se torna famoso, então cuidado. Sempre procuro conhecer e discutir as coisas, e não proibir nada de ninguém. Mesmo que às vezes me aflore um autoritarismo, um exagero.

Hoje tenho preguiça de afirmar minhas coisas só por afirmar. Se afirmo, é porque simplesmente quero dizer como me foi importante a experiência e que sim, vale a pena. Geralmente é clássico, me dou bem com clássicos como vocês se dão bem com o contemporâneo, e assim segue a diversidade.

Hoje tenho preguiça de algo que eu adorava: artigos. Jornalistas são bons em escrever artigos. Eu estava feliz querendo escrever artigos. Mas aconteceram dois artigos esse ano, um deles emocionante, e eu descobri que nem isso quero mais. O tcc vai virar capítulo de revista digital e eu só queria cancelar isso. Percebi que sigo uma área de atuação até bem definida, e isso foi sem querer, mas as coisas são tão iguais sempre que meu deus do céu. Mas tem lugares e temas tão mais burocráticos que até sou uma privilegiada na posição em que estou. Tenho o luxo de reclamar do que conquistei, mas eu confesso que estou decepcionada.

Meu grande problema com aquela frase de Graciliano, com as músicas que ouço, os filmes que vejo e os livros que leio, é que as coisas que sinto não são deste mundo. Pode parecer, e até talvez seja, discurso de adolescente, mas o que me rodeia parece tão apático, igual, padrão, que não cabe toda a minha expectativa - que não sei não ter, mesmo sabendo que a decepção é culpa minha mesmo.

Não sei como terminar esse texto. Só sei que esse ano descobri novos sons, novos vídeos, novos textos, novas pessoas. Também conheci o que é sentir demais e o sentir de menos. Só sei que esse ano parece que vai durar até o fim da minha vida, mesmo que eu escreva outras datas em meus papéis. As pessoas dizem "pode aparecer coisa melhor" e eu penso "como, melhor? melhor para quem?"; "você vai conhecer mais pessoas e lugares" e eu penso "que gasto de energia é conhecer gente, é sempre a mesma coisa: oi, tudo bem, tudo e você, que bom, legal", e a partir de certo momento a gente se acostuma e aí começa tudo outra vez.

Até parece um texto triste e etc., mas essas coisas passam pela minha cabeça desde pelo menos 1995, então eu não estou na pior. Só não gosto de fugir de tristezas e pensamentos perturbadores que levam à reflexão. Detesto conselhos que não servem para nada como "fica bem", "não fica triste", "não chora". É como você aconselhar a um gripado a não ter febre. E não me sinto bem estando bem demais e não conversando comigo, porque parece vazio e... plástico. Tem dias que merecem reflexão. Feliz ou infelizmente minha retrospectiva de 2017 é mais ou menos essa. De alguma forma mudei, me sinto diferente. Tem gente que nem percebe. O grande problema é que tenho horror a rotinas, ciclos, padrões, várias pessoas seguindo um mesmo caminho. Sei que estou dentro disso e não tem como não estar. Lido com isso externamente numa boa enquanto a cabeça pensa nisso e muito mais.

A parte boa nisso tudo é sempre que alguém, lá num passado não muito ou tão tão distante, já falou sobre isso. Ou pintou, fotografou, filmou, cantou. Fez parecer bonito, ou horrível. Porque de alguma forma é. É uma metamorfose, não é mesmo? Mudança de pele, como as cobras fazem. E que bichos bonitos são as cobras. Então me sinto amiga de quem viveu há mais de 200 anos e, apaixonado por uma mulher casada, escreveu Werther, de quem viveu até quando eu tinha dois anos e soube exatamente explicar coisas que eu mesma sinto e vejo, mesmo que a galerinha cool ache que ele é um "babaca do caralho".

Certa vez comentei sobre profissões com a chefia, e esta concordou: há pessoas que nascem para solucionar problemas, nós nascemos para criá-los. Serve para a minha vida toda. Sou aquela que não fala mal das fórmulas matemáticas (inclusive detesto quem fala, e quando fala), nem está tanto assim a fim de saborear o resultado. Sou a que se diverte montando o problema, quebrando a cabeça, vivendo o caminho. Sou, imodestamente, uma moleca maravilhosa.
Eu sou o moleque maravilhoso
Num certo sentido o mais perigoso
Moleque da rua, moleque do mundo, moleque do espaço 
Raul Seixas - Moleque Maravilhoso, 1974.

1 de dez de 2017

Onde eu estava quando Belchior morreu: prelúdio para um tcc

Dia 28 de abril eu tive um sonho - sim, mais um - estranho, já começa por aí.

Escola Normal Caetano de Campos
Estava andando pela cidade à noite, e passava por um edifício que se assemelhava muito à Escola Normal Caetano de Campos, da Praça da República. Era um pouco mais quadrado, mas amarelo e neoclássico do mesmo jeito. A cidade tinha um ar diferente, e eu estava voltando para casa e morava com alguém, não sei quem. Parei para observar os detalhes da arquitetura, e pelas janelas dava para perceber que era um edifício público e cheio das burocracias, portanto kafkiano (essa parte é bastante simbólica, mas talvez eu não saiba explicar o porquê). De tanto observar os detalhes, as características neoclássicas iam "derretendo" até o edifício, que era visto de perspectiva construtivista, se transformar num grande pedregulho com janelas à noite. Percebia que uma caixa de ar condicionado, ou caixa de luz, se desprendia do seu local habitual e a fiação iria soltar faíscas. Não só senti como esperei, quase torcendo para que pegasse fogo. De algum modo queria dizer, a quem morava comigo, que algo de interessante aconteceu em meu caminho.

O sonho acaba. No dia seguinte fui até a Estação Pinacoteca para uma aula, e depois corri para a Estação da Luz, pois iria para o Tietê me encontrar com a amiga. Fomos para São Thomé das Letras - MG aproveitar o feriado de Dia do Trabalho/Trabalhador. Nisso encontrei por acaso com Caju e Castanha, os abracei e beijei, mas já é outra história.

No caminho, chegando a São Thomé por volta das 19h, 20h, eis que acontece um absurdo. Tem uma pedreira na entrada da cidade. Esta pedreira, da minha vista no ônibus, era exatamente o edifício de meu sonho, na mesma composição diagonal que confere movimento à imagem e destaca a grandiosidade das formas, inclusive. Foi impactante, mas ainda tem mais. Conhecemos a cidade, dancei Comfortably Numb na sacada da pizzaria, morrendo de frio, etc., turistamos e no dia seguinte partimos rumo às cachoeiras. Fomos a pé, pois sou uma pessoa que definitivamente detesta carona.

Descemos e vi a pedreira de dia, linda, meu coração afundado no peito. Fomos nas águas, fizemos amizade com um casal hippie latinoamericano sem dinheiro no banco, compartilhamos certas coisas e enfim. Mais à frente uma família cantava Tropicana, e eu cantei também, porque né: Alceu. Subimos a estrada em direção à cidade novamente.



A internet ali é péssima, funciona de quando em quando. De volta à pedreira, olhando o mundo e a infertilidade das pedras, aquele Sol quente-frio, sinto o celular vibrar. Colega de classe afirma que Belchior morreu, e eu nos pés da pedreira no meio da estrada. Belchior morreu. Não sei se senti a dor ou a beleza do momento, talvez os dois. Belchior sempre me conferiu dor e beleza. Por exemplo, quando pequena eu tinha medo da melodia de Velha roupa colorida. Medo que me dava dor, mas dor e medo porque é minha música favorita dele. De início costumo sentir dor e medo do que é belo, como magnetismo de um imã, que ora rejeita, ora se gruda e quase que não larga mais.

Então senti a dor e a beleza da morte de Belchior aos pés da pedreira de meus sonhos. Foi a morte mais bonita de toda a minha vida.

Um mês depois entreguei um artigo para o curso, coisas aconteceram e minha vida rodopiou como o diabo gosta. Se foi bom ou ruim, não faço ideia; mas ainda mexe muito comigo, é como aquele livro favorito que te frustra e você jamais esquece. Estou dentro dos livros mais doloridos, pesados, profundos, bonitos, maduros, que já li.

Depois desse artigo, teve um segundo, que foi trabalho de conclusão de curso. Entreguei na quarta-feira. A conexão com a história de Belchior é a edificação, além de questões subjetivas que nem sei explicar porque nem pensei direito. É o seguinte: decidi falar da ligação pessoa-edifício, justamente desse imã que ora repele e ora atrai. Porque, veja bem, como é que pode um edifício público não ser frequentado por toda a população de um determinado lugar? A simbologia das estruturas, o conceito arquitetônico, os projetos políticos, a imposição dos intelectuais, tudo influencia na agonia que a gente sente às vezes entrando num edifício. Como o curso é de biblioteconomia, falei de bibliotecas. Citando o Poder Simbólico de Pierre Bourdieu, o Manifesto de Warchavchik, A Cidade de Chico Science. Falta a correção e, se tudo der certo (ou nada der errado), será publicado em breve.

O que aconteceu com esse texto? De olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava. Tive de agosto a novembro para escrever 15 páginas, e as quatro últimas - e essenciais - fiz, como sempre, na madrugada do dia anterior. Porque eu funciono de noite. Então fui dormir às 5h e acordei às 7h35. Ajustei detalhes até as 19h e entreguei às 20h. Cronograma e antecipação não trazem emoção (quase uma frase Jack Torrenciana, hein?).

All work and no play makes Jack a dull boy
Então é isso. Desde que me entendo por gente, sonho com edifícios. Desde que nasci estou relacionada de alguma forma com o construtivismo russo. Com pedra, areia e sol. Com dores que proporcionam prazeres. Com angústias. Com questões sociais e de poder. Com O processo de Franz Kafka, que ilustra meu artigo na obra de Orson Welles, de 1962. Faz todo o sentido do mundo eu trabalhar com patrimônio e memória, com apropriação de espaço e questionamento de poder. O poder invisível, sobretudo. É possível que eu tenha escolhido o rumo nesse próximo quinquênio de minha vida: as questões arquitetônica, artística, estética e social.

Era mais ou menos essa cena: o edifício e eu
Agora estou aqui, com algumas coisas mais ou menos resolvidas, com o curso acabando, problemas de maio para cá se resolvendo, o artigo entregue. Estava ansiosa para 29 de novembro para ter sossego. E agora que risquei todas essas tarefas de minha lista, adivinha o que aconteceu? Tédio. E com o tédio das questões cotidianas resolvidas, eu me lembro de quem? Dele, a mosca, meu irmão:
Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso, abestalhado, que eu estou decepcionado
Por que foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto: e daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado
Esse ano eu morri, mas ano que vem eu não morro! ✌

26 de nov de 2017

Quando eu era pequena

Ricardo Siri Liniers
Numa das diversas pausas da estruturação do tcc, encontrei essa coisa linda que Liniers postou hoje. Lembrei de mim.

Quando eu era pequena, corria da minha sombra, porque achava um desaforo ela passar na minha frente, e eu que devia chegar primeiro nos lugares. Nesses momentos a Helen de três, quatro anos, vivia com os olhos grudados no asfalto, preto, brilhoso, iluminado pela lua.

King Crimson - Larks' tongues in aspic, 1973
Também competia com a Lua. Eu andava, ela andava. Eu parava, ela parava. Por que me perseguia, pelo amor de Deus? Quem tinha que seguir em frente era eu. Papai dizia que Mãe Neguinha, minha bisavó - se não me engano, ou era conversa dele -, dizia que Sol e Lua eram um casal apaixonado. Mas brigaram, é por isso que há dia e noite, e desde então caminha a humanidade. Com um reatar desse relacionamento, ou seja, com Sol e Lua no nosso céu ao mesmo tempo, dinossauros voltariam a habitar o planeta. Acho que mamãe me explicava que não era a Lua que andava para me seguir, e sim a Terra girando, dia e noite, e eu dentro dela.

Eu dentro de mim. Quando era pequena, mais nova ainda, achava que era uma índia, com os cabelos nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar.  Passava em frente a qualquer espelho e via que não, então saía correndo, indignada. Eu queria ser índia, por algum motivo.

Por algum motivo, a despeito dessa revelação, eu adorava brincar com espelhos. Aquele espelho de moldura plástica laranja, eu sentava no chão de casa, lá em Paraisópolis, cimento queimado. Posicionava o espelho de todas as formas e via o mundo lá de dentro, com umas perspectivas que hoje tenho o enxerimento de dizer que eram até construtivistas. O mundo avesso, tão maior, tão cheio de novidades. Eu queria entrar lá dentro e viver ao contrário. A porta da direita que era na esquerda, esse tipo de coisa.

Dario Argento - Profondo Rosso, 1975. (David Hemmings)
Tinha também os sonhos. Falei aqui da última vez como sou uma (in)cansável sonhadora. Os sonhos de minha vida foram na infância. Teve um que eu realmente guardo no peito, se alguém tratar de simbologias por favor me contate. Estava de carro com papai e mamãe, minha irmã ainda não existia. Um calor dos infernos, a estrada para lugar nenhum. A paisagem era areia. Não dunas, mas aquela terra infértil de chão batido, de abandono. Papai parava o carro no meio da estrada onde existíamos apenas nós três. Parava posicionado em frente a um edifício, mas numa simetria digna de filmes do Kubrick. Este edifício era absolutamente retangular em todas as suas formas, preciso e interminado. Ninguém na obra. Blocos de cimento, tudo cinza e poeirento como cimento que nunca viu água. Novamente a minha visão construtivista do todo (provavelmente porque eu era criança e tudo era gigante e infinito de minha perspectiva), e nós três encostados no carro olhando, como Ferris, a namorada Sloane e o melhor amigo Cameron (ou seja, eu mesma) observando um a obra de arte em um - cóf cóf - museu.

Eu pensando no meu sonho até hoje, já são 20 anos.
"The closer he looks at the child, the less he sees, of course, with this style of painting. But the more he looks at it, there’s nothing there. He fears that the more you look at him (Cameron), the less you see. There isn’t anything there. That’s him."
Tive outros sonhos com edifícios. No passado era às vezes, hoje em dia é todo dia. Impressionante mesmo, acho que vivo uma vida número dois quando fecho os olhos. Edifícios hoje são meu tema de tcc, com a limitação de me ater a bibliotecas públicas. Porque edifícios sempre me impactam, desde as igrejas, que só me interessam se são "muito arquitetônicas", como o meu favorito Mosteiro de São Bento, até aquela exposição sobre o construtivismo russo com fotografias de Aleksandr Rodchenko na Pinacoteca do Estado de São Paulo (comigo não é "Pina_" nunca não, falou) em 2011 que jamais esqueci. Porque construtivismo russo basicamente traduz meus sonhos.

Assim como o filme que Orson Welles (que homem) fez em adaptação de O Processo, de Franz Kafka (que homem, que livro, também me lembro o exato momento em que encontrei numa prateleira lá no fundo do Sebo do Messias), com edifícios surpreendentemente grandes em vista da pequenez de Josef K., aquele magrelo ombrudo lindo denominado Anthony Perkins; filme esse que ilustrará meu artigo em sua revista digital.

Orson Welles - The trial, 1962. (Anthony Perkins)
Porque é aquele negócio, como diz Alceu - sempre ele, em tantos momentos simbólicos de minha vida -,
Sinto o frio entrando pelos ossos
Como uma coisa um troço
Não sei explicar

Contudo, estou sabendo explicar de alguma forma, porque existe uma coisa chamada marxismo e outra materialismo histórico, e uma pessoa chamada Pierre Bourdieu, outra chamada Raquel Rolnik e outra Gregori Warchavchik, que por acaso nasceu em Odessa, cidade Ucraniana que tem essa maravilhosa escadaria de Potemkin, a mesma de Eisenstein, com a maior fotografia de todos os tempos:
Aleksandr Rodchenko - The Stairs/Steps, 1929/30.
Quando eu era pequena, era século XX. O meu século, o século que dá aquele esquisito no peito, o fim do segundo milênio. Tudo isso é sobre aquilo. Sempre estou lá. Todas essas coisas são, talvez, o mundo de meu espelho. E eu dei uma paradinha no artigo, que devo terminar até amanhã, para escrever descompromissadamente para ver se agora vai. Pretendo voltar aqui com o trabalho entregue, com o link para leitura, com sossego e com férias.

Me desesperei de modo abissal em 2017, por motivos infinitos: do cuore, de família, de trabalho, de escola técnica, de mim mesma. Me desesperei para escrever, me desesperei escrevendo, me desesperarei com o tempo e com a entrega. Mas é assim que me sinto viva, se não tivesse esse tum-tum-tum-bate-bate meu coração, que zabumba bumba esquisito, batendo dentro do peito, eu nada seria.

19 de nov de 2017

4. Senhor cidadão

giphy
2017 foi um ano imprevisível para meu coração, inacreditável para a minha mente. Nunca pensei que fosse acontecer o que aconteceu, que sentiria tanto assim, e que existam tantos "cômodos" em minha cabeça. O cérebro é um universo, e o coração um oceano tormentoso.

Por sorte, tive forças que me surpreendem toda vez que paro para pensar no assunto, e companhia de amizades antigas e novas, coisa que também não previ para este ano. Foi tudo tão intenso que dias pareceram durar semanas, mesmo que as semanas, em certos momentos, tenham voado como se fossem dias. Senti coisas por cinco anos, e só se passaram cinco meses.

Falta mais de um mês para a chegada de 2018, e não sou tão favorável assim a retrospectivas, mas não tem como não parar cinco minutos do dia e pensar caralho, como foi que isso aconteceu? Foram meses tempestuosos, com um prelúdio já no primeiro mês, clímax ali no meio, no inverno, e um desanuviar por agora, porém ainda em meio a tempestade.

Tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais. É algo que não dá para fazer muito esforço para prevenir: cada um com seu cada qual e vou respeitando decisões alheias, porque a idade vem chegando e com ela a necessidade de fazer escolhas, determinar prioridades. Minha prioridade é viver minha vida como acredito que seja correto, porque ela é uma só, independente do que filosofias e religiões afirmem. Não é possível parar de viver a vida que a gente tem para viver a de outrem (salvo situações específicas e extremas, ou seja, estou falando só do meu caso mesmo).

Então estou aqui estudando, frustrada com um tcc que sairá em dez dias, praguejando contra o mundo, mas principalmente comigo mesma por ser tão desorganizada e procrastinadora. No trabalho cada dia é uma odisseia; me desespero, mas sou apaixonada por emoção, dramas, aventura, coisas novas (sim, museu tem tudo isso: "quem vive de passado" tem muito o que fazer, muito em que pensar e até muita diversão - sim, estou falando com você, você mesmo que utiliza a frase quem vive de passado é museu, você vai morrer antes do natal).  Na vida pessoal, um a mistura de notas do subsolo, músicas tristes, poesia, dengo, ummagumma e até um pouquinho do que se pode dizer de relevante sobre Bukowski. Mas é aquela coisa: viver cansa.

E que bom que cansa. Quando não faço nada, eu durmo mal. Preciso gastar as energias de dia para ter motivos para dormir à noite. É a mesma coisa na vida: ela precisa acontecer. E acontecer em diversos caminhos, concomitantemente. Porque se alguma coisa vai mal, outra coisa deve ir bem, para equilibrar. Para distrair, para dar esperanças, porque senão tudo vira frustração e desespero. Mesmo para mim, que estou desesperada todos os dias, até dormindo.

Parênteses: essa tarde mesmo, não estava fazendo nada e dormi mal; sonhei sobre um autor que falava da miséria humana no sentido filosófico, com um aluno meu falando sobre racismo e com um mendigo aparecendo em determinado espaço. Acho que o sonho nada tem a ver com o texto, mas achei um sonho pesado demais para um cochilo de sábado à tarde. Eu só queria descansar, sabe, e dormir muitas vezes me cansa. Dormir significa que vou mais uma vez entrar num trem, ônibus, metrô, avião ou carro. Que vou andar por plataformas e estações. Que vou trabalhar. Então tenho hora extra dormindo, não sei o que é sonhar com o nada mais. Meus sonhos são urbanos, conturbados, atarefados, arquitetônicos. Fecha parênteses.

Esses tantos acontecimentos amorteceram desgostos e pude seguir minha vida com certa paz. Fui racional e fria quando e com quem pensei que nunca seria, me senti uma mulher arretada demais. Fui emocional e calorosa quando e com quem nem pensei que daria mais tempo de ser, e me senti uma mulher indefesa demais. Foi um Deus-nos-acuda, fui Inaurafui Compadecida. Fui também indiferente. Mas sempre comovendo-me por excesso, por natureza e por ofício. Porque acho medonho alguém viver sem paixões.

Então hoje completo o quarto dia do desafio de 30 dias de música. Esse ano está tão confuso que nem tenho achado ruim lembrar de alguém com músicas que amo. E eu amo tanto esse artista (também a pessoa, mas isso é irrelevante), que nem lembrando de quem preferiu me esquecer, essa música fica ruim. Pelo contrário: ela é ainda mais forte e poderosa, e só se auto afirma, dado os acontecimentos recentes.


Se o caso é chorar, me recuso. Prefiro me defender com esse julgamento/questionamento maravilhoso, tropicalista, justo, que diz muito sobre todo aquele cidadão opressor: o político, o da elite, burguês e pequeno burguês, o chefe, seja o de fábrica, de empresa ou de família; coronéis saruê, o porco, o cão, a ovelha orwellianos. E, por falar em ovelha, continuo sendo, com muito orgulho (e às vezes com dor) a ovelha negra da família.

4. a song that reminds you of someone you would rather forget about (uma música que te lembra de alguém que você prefere esquecer)



Senhor cidadão
Me diga, por quê
Você anda tão triste?
Não pode ter nenhum amigo
Na briga eterna do teu mundo
Tem que ferir ou ser ferido
O cidadão, que vida amarga

* Confira minha lista do 30 day music challenge

6 de nov de 2017

3. La belle de jour

Luis Buñuel - Belle de jour, 1967.
A gente possui certezas que, conforme o tempo passa, se tornam incertas. Acreditei por semanas que postaria Going to California, do Led Zeppelin, porque me lembra um dia específico em que fui à praia. Contudo, a companhia hoje me traz lembranças desconfortáveis porque houve (mais de) um grave rompimento familiar.
I think I might be sinking
Throw me a line if I reach it in time
I'll meet you up there where the path
Runs straight and high
Então hoje estou recordando, remoendo, com remorso de certas coisas do passado (que nada têm a ver com questões familiares porque, afinal, parente é serpente), e consegui ficar pior ainda ouvindo Alceu. O Alceu, que é a alegria de todos os artistas vivos que adoro e que são do nordeste. Não que seja uma surpresa, Anunciação sempre me deixou cair num poço incrível de existencialismo desde minhas épocas de catequese, quando entoava com a criançada (que eu detestava) essa música (que eu amo).

Não é Anunciação que me lembra do verão. Já já eu digo qual é, porque tem outras coisas a serem ditas na frente.

Esta cidade teve seus bons momentos (até as últimas eleições), que não aproveitei tão bem assim, porque quando o presente acontece a gente tem muita folga e deixa tudo pra depois; como diria Sua Mãe, eu estava entorpecido com outras paixões e ainda era imaturo para me jogar. Mas se teve algo que aproveitei 99% foi o Alceu.

Teve Alceu no Sesc Itaquera. Bem na hora de eu sair de casa lembro que choveu bastante, era domingo e eu disse Berenice, segura, nós vamos bater., e me lembro de chegar ao final de Cavalo de Pau. Foi maravilhoso dançar na lama num final de tarde, dançar até o pagode russo, porque na dança do cossaco não fica cossaco fora. Isso foi março. O ano correu de uma maneira que parecia bom, mas tava ruim, e parece que piorou. 2015 foi complicado, não é mesmo?
Teu coração tá batendo
Como quem diz:
"Não tem jeito!"
O coração dos aflitos
Pipoca dentro do peito
Então teve o Bloco Maluco Beleza no Parque Ibirapuera em janeiro. Um calor de rachar. Fafá de Belém cantando Vermelho até em versão Maracatu (spoiler: todas as versões são iguais, você só está bêbado) no trio de Alceu, fingindo que não havia votado em Aécio. Muito calor, muita gente pulando e bebendo e eu sóbria pois garrafa de vidro infelizmente não pode e eu sou enjoada e odeio cerveja. Odeio multidão, mas amo Alceu, fiquei pistola mas foi maravilhoso. Pena que. Tem coisas que a gente parece que saiu de um livro do Dostoievski e fica imaginando desculpas pessimistas para não agir. Momentos. Remorsos. Ai, Jesus.
Conclusão final, senhores: é melhor não fazer nada! É melhor a inércia consciente! Pois, então, viva o subsolo! Apesar de eu ter dito que invejo o homem normal até a minha última gota de fel, nas condições em que o vejo, não quero ser ele. (Embora não pare de invejá-lo; não, não, o subsolo, em todo caso, é mais vantajoso!) Ao menos, lá é possível... Ah! Estou mentindo agora também!
Daí teve Alceu no meu bairro mesmo. No meu bairro não tem nada, é tão periferia que luz elétrica da AES lá em casa só foi existir em 2015; que não há museu, centro cultural, biblioteca pública ou registro histórico para os ocupantes saberem quem são, de onde vêm e nem podem pensar para onde vão. Mas tem escolas públicas e um CEU. Pois foi nesse CEU que consegui levar mamãe pra ver Alceu. Dessa vez não foi nem grande show, nem trio elétrico; foi mais ou menos um acústico, com o mesmo script, mas parecia até novidade. Foi lindo e íntimo demais. Era frio, era junho de 2016. Um ano também complicado, obtuso. Triste.

Enfim, dos meus três momentos ouvindo os repentes de Alceu e as piadas sobre a música da muriçoca, em todos eles, não importando a estação do ano e as condições climáticas, eu lembro da moça bonita da praia de Boa Viagem. Essa música me dá uma coisa. Acho que o azul em que a Belle de Jour viajava é o azul em que me perdi e tenho me afundado. Para quem fala inglês, parece que o azul é um estado de espírito. Aqui temos a segunda-feira cinzenta, lá eles têm blue mondays. Hoje é segunda né. Tô triste. A frieza do azul me gela quando ouço essa música, inspirada num filme de Buñuel. Mas, ao mesmo tempo, o azul é a cor mais quente (não é só o filme não, é a física que diz) e queima meu peito e fica esse sentimento estranho e profundo dentro de mim.

Portanto, não podia ser outra senão essa, ainda mais nas atuais circunstâncias. E tomara, meu Deus, tomara! que em Pernambuco eu termine meu 2017.

3. a song that reminds you of summertime (uma música que te lembra o verão)


La Belle de Jour
Era a moça mais linda
De toda a cidade
E foi justamente pra ela
Que eu escrevi o meu primeiro blues

* Confira minha lista do 30 day music challenge

30 de out de 2017

27. Iracema

Costumo dizer que odeio São Paulo. Pois é. Nem sempre. Gosto do que São Paulo foi, e do que poderia ter sido (infelizmente sempre prefiro o que poderia ter sido do que o que é, isto causa muita dor). Gosto da São Paulo dos (i)migrantes. Do centro histórico, das atividades culturais (nem todas, mas cada um com seu cada qual), de edifícios históricos, mesmo aqueles de arquitetura fascista. Das periferias, favelas. Do Brás.

Ouvir a voz rouca e rasgada do Adoniran é amar São Paulo. É chorar São Paulo. Não pelos paulistânos e paulistas "tradicionais", quatrocentões, de modo algum. Mas pelo trabalhador que construiu a cidade, que levantou-a do barro e que, de um lugar inacessível e inóspito, a fez centro econômico e metrópole que acolhe diariamente milhões de pessoas de todos os cantos do mundo. Seria lindo, se não fosse trágico. Trágico, porque há xenofobia e mixofilia. Desigualdade social, econômica, e por aí vai.

Não posso dizer "mas vamos falar de coisa boa!", porque o post é mesmo trágico. É a história de Iracema, é a música que me parte o coração.

27. a song that breaks your heart (uma música que parte seu coração)


De vez em quando, geralmente quando estou triste, minha playlist (antes de me interessar pelo post-punk britânico) certamente tem Nelson Gonçalves, Bezerra da Silva e Adoniran Barbosa.

Mamãe sempre cantou o trem das onze, e até vivo como os moradores do Jaçanã que não podiam perder o tal do trem das onze, o último da noite. Porque moro em periferia, distante de tudo. Tanto, que teve um dia, curiosamente dia em que vi ao vivo Demônios da Garoa, que chorei Iracema, sorri e apertei a mão de Dedé Paraízo, que cheguei com mamãe bem depois das onze no terminal de ônibus, e só amanhã de manhã (sorte que tinha o tal do uber e a casa de um amigo próximo, com festa; regalias que não existiam em meados do século XX). Além de morar longe e correr o risco de perder o último transporte da noite, ainda passo todos os dias mais ou menos pelo caminho do antigo trem, entre trabalho e escola, que subia do Tamanduateí para Guarulhos, e passava pelo Carandiru - e Jaçanã.

Voltando à Iracema. Me senti Adoniran quando ouvia os Demônios e chorei, eu chorei de dor porque, bem, a vida não é lá essas coisas que a gente acredita na juventude. Ainda tenho abissal dificuldade em dizer meus sentimentos, então recorro às artes audiovisuais e textuais. Me mascarando em coisas já ditas, me sinto protegida, porque qualquer coisa eu digo que não sou eu, é a música que está falando, olha só. É aquele texto com referências e ABNT. Eu apenas concordo, não quer dizer que eu sinta, ou que eu seja. Mas é: eu sou tudo isso sim, apenas covarde e pequena.

Me senti Adoniran, porque Iracema, eu nunca mais eu te vi. Porque Iracema, eu perdi o seu retrato.

Não sei se é assim com vocês, mas enquanto me lembro de datas, e associo  com cré, minha memória visual é bem comprometida. Tudo me lembro atrás de nuvens, mesmo que tenha acontecido uma hora atrás. E me forço a lembrar revivendo momentos. É até interessante essa parte, porque me lembro das aulas da professora Sandra e ela explicava sobre temporalidade, testemunhos, etc.

Lembro de algo como que a memória se confunde muito com a imaginação. E como as lembranças são efêmeras, para compôr uma linha do tempo decente nosso cérebro vai inventando o que perdeu de informação. É como um restauro mental: fica parecido com o que foi, mas já não é mais. Até o momento em que o frágil papel da memória se dilui e tudo o que se tem é o material enxertado, posterior, não original.

Quando ouço de lembranças guardo somente suas meias e seus sapatos, Iracema, eu perdi o seu retrato, me sinto o noivo de Iracema, faltando vinte dias para o nosso casamento, naquela confusão do público em volta do corpo outrora pinchado no chão da avenida São João, recolhendo suas meias e seus sapatos. Naquela época registros fotográficos não eram como hoje. Uma fotografia era cara. Mas Iracema se manteve viva no coração de seu noivo e na música de Adoniran Barbosa.

Avenida São João, déc. 1950.
Por que essa música é tão importante? Porque como zelo pela memória, levo muito da minha profissão para minha vida pessoal. Então Iracema não só morreu. Morreu também sua imagem, a da fotografia perdida. Futuramente, não haverá nenhum testemunho da história de Iracema, de tantas Iracemas. E saber que isso é tão completamente possível, dá um aperto no peito e real vontade de chorar. Então, assim como o noivo de Iracema, nos apegamos às meias e aos sapatos, para ao menos fingir que a pessoa está ali, conosco.

Há uma questão que professora Sandra também dizia nas aulas. "Uma árvore caiu no meio de uma floresta. Ninguém viu. A árvore caiu?" - como dizer que sim, se ninguém viu? Que árvore? Que floresta? Se ninguém viu, não aconteceu. Então, tem também tem essa citação que encontrei num livro da biblioteca do museu:
No México existe a crença de que cada pessoa morre três vezes:
A primeira é no momento em qua suas funções vitais cessam.
A segunda é quando o seu corpo é colocado na tumba.
A terceira acontece em algum momento no futuro, no qual o nome do falecido é pronunciado pela última vez.
Aí então a pessoa realmente morre.
Ted Klein para a Roots Web Review. (apud. REZZUTTI, 2013, p.267)
Parece um texto sobre morte. Mas não somente. É sobre perdas, sobre momentos findos, tempos que não voltam mais. Sobre não ter o timing. Não aproveitar o presente, ou querer tanto aproveitar todo o presente que a profundidade dele é pouca e se anuvia facilmente. A São Paulo que não é, a Iracema que foi minha, e nem o retrato dela tenho mais. O caminho que estava traçado e foi riscado. A não preservação de indícios, o desconhecimento da História. A memória que falha, a imaginação que confunde, a expectativa que se cria, a decepção que chega a galope (e é culpa do que expecta). O abandono, Iracema, meu grande amor foi embora.





Mamãe e eu, Dedé Paraizo e os Demônios da Garoa.

* Este post faz parte do 30 day music challenge. Leia mais.

22 de out de 2017

Backups #1

Depois de 11 anos na frente do computador, decidi que odeio redes sociais. Então o facebook tem o famigerado on this day, e até que não fomos pessoas tão vergonhosas no passado. Tem dia. Vou reproduzir aqui algumas coisas que não me arrependo de ter postado, para a posteridade. Porque até o fim do ano que vem crio coragem para apagar mais esta conta.

Começo pelo bônus, porque a melhor ilustração deste post vem dele.

21 de outubro de 2015.

[ B o n u s ] Essa pintura merece destaque, por n motivos.

Eugene de Blaas - O flerte, 1903.
22 de outubro de 2015.

Minha época favorita de Tom and Jerry é sob direção de Gene Deitch (1960-62) na Praga da então Tchecoslováquia, e produção da MGM. Você reconhece a época pelas caras e bocas do gato e do rato, o homem sempre tem um olhar severo e se irrita facilmente, assim como o dono de Tom, que noutros episódios busca pescar, relaxar com um café, ou algo assim. Amo os movimentos, cores, música, dublagem. Meu episódio favorito é Buddies Thicker Than Water, de 1962.
Acho o Gene de uma vanguarda total, diria até de uma psicodelia admirável. Hoje de tarde me lembrei de Bizet, e desse clássico a seguir:

 

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Marquei como lido "A casa dos budas ditosos".

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As 19 Rapsódias Húngaras de Liszt

22 de outubro de 2013.

Estava ouvindo Syd Barret - Mek Weg!

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Dorris McComics

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Antonio Gramsci - Escritos políticos vol 2. II. A questão meridional: 1926. p. 415
22 de outubro de 2011.

O cabelo absurdamente lindo e a vida parecia resolvida. Doce ilusão dos 19 anos.
***
Nininha com 4 anos e as orelhas inteiras (agora tem 10 anos e uma orelha murcha)
22 de outubro de 2017.

Hoje em dia esse tipo de coisa faz sentido em minha vida, estou só aqui bebendo, cheirando incensos e pagando contas.

14 de out de 2017

28. C'est la vie

Krzysztof Kieślowski - La double vie de Veronique, 1991.
Tenho costume de usar termos estrangeiros em algumas conversas. Não que eu seja fluente na língua - por exemplo, não sei latim, mas já soltei um ipsis litteris no meio de um seminário, de nervoso -, ou seja empreendedora™ que solta um startup, follow up, feedback, new car, caviar, four star daydream, think I'll buy me a football team, I'm all right, Jack, keep your hands off of my stack. Não, longe de mim. Mas às vezes a gente solta um je ne sais quoi, um c'est la vie... Porque, bem... c'est la vie...

Então usei o último termo do parágrafo anterior em uma conversa e me lembrei de Emerson Lake & Palmer, uma de minhas bandas favoritas de rock progressivo, que me lembra as trilhas sonoras de Peanuts [1] e Tom & Jerry [2] (lembrando que meus episódios favoritos são os polêmicos ilustrados por Gene Deitch), e de Inferno, do Dario Argento. O Keith Emerson é (foi) um tão excelente musicista, e com um som tão específico, que até a leiga aqui em teoria musical sabe muito bem distinguir quando o piano está sendo tocado por ele.

Enfim, esses dois parágrafos confusos só existem para introduzir a música Money, do Pink Floyd, e o que vem a seguir. Estou tentando montar meu 30 day music challenge, e hoje respondo o dia:

28. a song by an artist with a voice that you love (uma música por um artista com uma voz que você ama)

Greg Lake. Poderia ser Ian Gillan, mas... Greg Lake. Ele é o L de ELP, o Lake de Emerson Lake & Palmer. E o segundo dos que se foram (só Carl Palmer, o baterista, está vivo).

Obviamente a música não poderia ser outra:

Like the sea
There's a love to deep to show
Took a storm before my love
Flowed for you
C'est la vie
E, para comprovar o que estou dizendo, caso a estrofe acima não tenha tocado o seu cuoração, tem também essa abaixo. Porque Greg foi o primeiro vocalista (e baixista, isso é muito importante) da banda King Crimson, mais conhecida por ter um cangaceiro na capa (mentira, é um Coringa, mas não custa nada sonhar) de um de seus discos e/ou por ter zero discos disponibilizados no youtube porque o Robert Fripp não colabora. Então, como o Fripp não colabora, admiráveis fãs isolaram a voz de Greg na música Epitaph, do primeiro disco, In the court of the crimson king, de 1968, que é, inclusive, um dos meus dez discos favoritos de toda a vida, e um dos classicões do famigerado prog.

Knowledge is a deadly friend
If no one sets the rules
The fate of all mankind I see
Is in the hands of fools
* Já postei o dia 01 do desafio.
[1]. A Charlie Brown christmas, de 1965, tem música composta pelo pianista de jazz Vincent Guaraldi.
[2]. Saturday evening puss, de 1950, é um episódio dirigido e escrito por Hanna-Barbera, e a música composta pelo pianista Scott Bradley.

1 de out de 2017

Bright and dark sides

Gustave Caillebotte - Rue de Paris, temps de pluie, 1877
Me baseei nesse texto da Gabriela para criar uma lista de coisas gostosas que animam meus dias. Porque há dias tão intensamente tempestuosos que simplesmente nublam qualquer possibilidade de boa atividade, me fazendo não enxergar alternativas e fazendo chover em minha cabeça. Não vou elencar tudo, infelizmente. Mas, para me lembrar melhor dos momentos, é bom pensar em rotina, em horários. Eis aqui meu lado brilhante da vida:


Gosto de me espreguiçar pelas manhãs, antes de levantar da cama. Parece que antes disso sou uma pilha de ossos desmontados. (Vocês - pelo amor de Deus - já assistiram Funny Bones?)


Sou apaixonada por rostos que acabaram de acordar, inclusive o meu. Uma pessoa que acabou de acordar, com o cabelo assanhado, a cara de "onde estou, quem sou eu, o que está acontecendo?", as olheiras vermelhas (eu adoro olheiras, sabe; e ainda bem, porque nasci com elas), a voz rouca, a preguiça, a desorientação e, no meu caso, o silêncio. Não interessa se estou de bom ou mau humor, eu de manhã falo muito, muito pouco, quase nada.

Cafuné!

Café!

Ir para lugares ouvindo música e prestando atenção na paisagem. Quando é um caminho que gosto muito e a distância se mede temporalmente em mais de uma hora, com certeza estarei ouvindo o disco Live at Pompeii, do Pink Floyd. Também adoro ligar o som e dar um cochilo, dependendo do horário, e se estou sentada no ônibus.

Dar bom dia a desconhecidos. Sorrir para eles, sabendo que essa é a única vez na vida que nos encontramos, provavelmente, e cordialmente trocamos coisas boas num gesto simples, rápido e indolor. Quando acontece de nos revermos, de nos reconhecermos, é melhor ainda. É uma amizade sem nome e sem compromisso nenhum.

Andar e observar - de novo - a paisagem. A arquitetura das casas, o modo de viver dos bairros, sentir o vento e ouvir os passos. Dar oi pro gato naquela garagem, sentir medo do gnomo daquele jardim, fotografar aquela flor e querer saber a cor da tinta daquela parede. Tenho o costume, desde sempre, de observar casas e apartamentos, fragmentos internos, e imaginar toda uma vida. O que o marido está assistindo, o que a mulher está fazendo, os gostos dos filhos, os empregos, preocupações e motivações de vida de cada um (como pessimista e intolerante a padrões que lê Buk e Dosto e ouve Raulzito, eu acho essa rotina toda um saco - mas esse jogo de adivinhação é uma delícia).

Bares. Não botecos-boutiques da Vila Madalena (Vila Madá para os paulistânos, mêo), mas os bares verdadeiros, com caixas de cerveja empilhadas, prateleiras tortas e garrafas diversas com conteúdos também diversos e às vezes sem rótulo, um balcão, o dono e um freguês, uma televisão com futebol, noticiário ou uma conversa. Um comentário. E, neste momento, meus amigos, que se exploda o politicamente correto. A simplicidade, crueza e ebriedade de um bar para mim é a mais pura poesia e humanidade. Mesmo que... não, não interessa o assunto e a opinião.

Atravessei a rua, entrei numa bodega.
- Faz o obséquio de me dar um pouco de aguardente?
O homem da venda trouxe a garrafa, pôs-se a despejá-la num copo sujo.
Como eu não o interrompesse, derramou a bebida com sovinice.
- Quer que encha?
- Vá botando.
- Ah! bom. É o que se leva deste mundo, opinou entregando-me o copo cheio.
Sentei-me e comecei a beber, olhando a casa fronteira, o pensamento espalhado.


Aquele momento que fico tão completamente empolgada que gaguejo, balanço os braços, digo as coisas todas na ordem errada e quem me ouve dá risadinhas. O mesmo quando eu sou a ouvinte. Tipo cena de insight de filme de mistérios e aventura, onde dois personagens perambulam pela sala com cara de interrogação, simultaneamente lhes aparece a exclamação e, por algum motivo, possuem uma fala sincronizada de eureka tão ou menos inexplicável que um musical com toda a cidade desconhecida entre si dançando e cantando do mesmo jeito. Amo (só não amo musicais). (p.s.: os vídeos a seguir possuem spoilers)


Minha linha de pensamento é idêntica a do Todd e kkkkk adoro esses filmes bestas do Nick Cage

Café novamente! Mas não o simples ato de bebê-lo. É esperar um dia inteiro pelo café da tarde e ter o prazer de ouvir a água quente jorrando por cima do pó, fazendo subir um aroma indescritível de paz. Café com mamãe e biscoitos da casa do norte, café sozinha com anotações em minha caderneta e suspiros apaixonados ou preocupados, café na pausa do trabalho com causos e uma boa prosa, café para aguentar as próximas oito horas, para me inspirar, me motivar, lembrar que a vida não é só problemas. Café.

fonte. russa, é claro
Cheirar gatinhos. ... Literalmente: pegar as gatas aqui de casa e dar um chêro e fazer carinho até ronronarem e ficarem doidas se esfregando, abraçando, lambendo, arranhando, dando chutes e correndo para se esconder e pular na minha perna, brincando. Carinho gatos a qualquer hora e em qualquer lugar. Queria ter essa habilidade de brincar com cachorros, tadinhos. Tenho duas e não dou a atenção merecida (... voltemos à parte boa).

Comer salada de frutas. Mas pelo amor de Deus, sem leite condensado, isso é criminoso. Salada de frutas é com frutas e o único líquido deve vir da maior fruta de todas, que é o suco de laranja. E só. Amo muitas comidas mas essa é aquela que a gente ama tanto que esquece de mastigar direito e quase se engasga e quer enfiar na cara (talvez eu seja uma comedora aflita, não façam isso em casa).

Dormir ao som da chuva, ventania, sapos, grilos, ou cães latindo ao longe. Dormir de cansaço e nem sonhar (eu sonho muito, não aguento mais).

E a mais novíssima melhor sensação de todas do momento: ir dormir com essa trilha sonora, in a specific way. Is such a heavenly way to sleep.

18 de set de 2017

O tempo, o que queremos e o que fazemos dele

Ker-Xavier Roussel - Les Saisons de la vie, 1892
Hoje reli A Cartomante, e sinto ter pensado nessa história por algum motivo na metade do caminho entre casa de papai e trabalho. Aqueles pensamentos que aparecem do nada em nossa cabeça como o demônio Pazuzu em O Exorcista, ou as propagandas da Jequiti no SBT.

Mas não foi por apenas ter me lembrado de Machado de Assis que reli essa história - que adoro. Foi porque me sentei no ônibus ao lado de um senhor muito atrevido (não uso esta palavra nem no bom, nem no mau sentido).

Pois atreveu-se a interromper minhas músicas e comentar sobre o sol extremamente quente, que ele é feirante e aguenta, tudo bem. Falou de vitamina D e não ouvi, ordenou que eu tirasse o último fone de ouvido que restava. Mas não era a música que me impedia de ouvir, e sim que ele falava muito baixo (ou estou perdendo a audição). Perguntou meu nome, eu disse e ele comentou de uma rainha Helen cristã grega do século XV a.C. (seria a mulher de Menelau e amante de Paris?). "Quem me vê não dá nada por mim", disse e comentou sua religião e que até lia mãos.

Olha, eu sou bem laica quanto a religião dos outros (e a minha própria, sou católica mas nem pareço), então a questão não é sobre acreditar ou não, ou o que é certo e o que é errado. Então ouvi muito educadamente o que ele tinha a dizer sobre minha mão esquerda, e desci em meu ponto habitual, agradecendo a conversa. Experiências, uma das graças da vida.

Não vou dizer o que ele me disse, nem sobre quem. Mas me incomodou o que ele disse no sentido que explico a seguir, e que tem a ver com várias coisas no passado que me fazem pensar a vida, o universo e tudo mais.

Detesto saber do futuro. Fico ansiosa para que ele chegue, claro. Fico muito nervosa para saber o que vai acontecer sobre coisas e pessoas que quero muito bem e que quero por perto. Até passo vergonhas por conta disso, mas prefiro toda a minha angústia do que saber o que acontecerá. Até porque odeio definições vai acontecer isso, as coisas são assim, sempre foram, sempre serão. Me diga isso e lutarei com a vida para provar-te o contrário. Meu destino sou eu.

Ontem infelizmente a televisão estava ligada e tive que assistir o fantástico. Pois me apareceu um robô com inteligência artificial, e querem saber? Eu acho isso uma merda. Com o r mais arrastado que possuo de meu quase paraibanismo, eu acho isso uma m-e-r-d-a. Dez minutos de entrevista com cientistas, com o próprio robô, sobre a possibilidade de se viver duzentos anos e tomar injeções que renovem seu DNA, e como não será preciso tentar ser saudável se alimentando daquilo que a terra dá, e eu gritando dentro de minha cabeça DISTOPIA!

Deus me livre de eu viver no Admirável mundo novo. De viver duzentos anos. De ser fisica ou mentalmente eterna. Quero, sim, ser eterna: em minhas palavras, em meus estudos, em meus aprendizados, ensinamentos, bens materiais relativos a meu trabalho e sentimentos. Mas nunca quero viver para sempre. Nunca quero viver duzentos anos. O caminho da vida é a morte. E o homem busca se artificializar. Acho isso horrível. Não compreendo o dinheiro gasto com essas pesquisas. Nem com a possibilidade de se mexer em um feto para evitar certas coisas que podem nascer com ele. Porque compreendo más formações etc., mas bem sabemos que quem tem dinheiro tem poder, e se quiserem mexer num feto para mudar cor de olhos, de corpo, textura de cabelo, data de nascimento, capacidade cerebral, tudo pode acontecer. Essa parte do feto foi discussão levantada em um grupo de filosofia sobre ética.

Pois bem. Também tenho horror a máquinas do tempo. Viajar para passado ou futuro. Isso acaba com a história. Você voltar fisicamente ao passado e mudar uma cena é como derrubar uma peça de dominó em uma fileira. Criança adoraria viajar no tempo e eu só digo "que horrível!", e comento, para reflexão, sobre a cena do De Volta para o Futuro, onde Marty McFly passa a sumir da fotografia da família junto dos irmãos porque impediu, quando estando no passado, o encontro e apaixonamento de seus pais. É pesado. Claro que o mundo muitas vezes é uma bosta, mas poderia ser pior. Melhor também, mas a história é o que se ajeita aqui se bagunça ali, e assim caminha a humanidade.


oh no
Então, respeito a leitura aleatória e quase impositiva da minha mão. Mas o que faço com as informações obtidas é escolha minha, não posso julgar ninguém previamente, evitar situações porque alguém me alertou de algo muito antes de acontecer, nem ficar com isso em mente e tomar decisões a partir disso. Camilo acreditou piamente (porque queria acreditar) que estava tudo bem, porque assim disse A Cartomante. Aconselho a leitura aqui, no domínio público. São 8 páginas, para quem se importa tanto assim com quantidade de texto. Há também a maldição de Laio, pai de Édipo. Prefiro não saber e decidir o que tiver que decidir em seu devido tempo. É como signos, acredito, mas não sigo o horóscopo do dia, porque não se trata disso. Nem vivo em função disso. Não é questão de acreditar ou não naquele senhor, ou dizer que ele está errado. Até porque ele não disse para eu fazer nada. É mais dizer o que faço a partir desse ponto. E que vou fechar minhas mãos sempre que andar próxima a alguém que queira puxar assunto.

Mentira nem to com raiva, mas o Bruce Lee é lindo

“rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo”
Não posso dizer que concordo ipsis litteris pois ainda estou lendo, porém esse livro é maravilhoso. E escrito numa velocidade que considero a minha de ser.

P.S.: esse post nada tem a ver com Dr. Who. A série, por mais que não assista, é legal. E a cena do Van Gogh makes me cry (e o ator é lindo).


o modezu
P.S. 2: amo buracos negros, de minhoca, física quântica. Me indiquem textos e vídeos sobre. Adoro ficção científica também, nada me impede. Como disse, meu destino sou eu, e nesse caso meus gostos também, obviamente.

P.S. 3: falei de fones de ouvido, e de Laio. Me veio em mente esta música. Coincidência? Acho que não.

11 de set de 2017

Ainda tenho em mim todo o sentimento do mundo

Henri de Toulouse-Lautrec - The Hangover (Suzanne Valadon), 1888.
Achei que não gostava de poesia. Achei que odiava poesia. Mas conheci Neruda. Conheci Pessoa. Até aí tudo bem. Contudo, conheci Leminski e pensei: "nossa, que cara chato".

Então tem o Graciliano. Nordestino como meus pais, tios e avós. E o alagoano que se filiou ao PCB há 72 anos disse em suas Memórias do cárcere:
Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões.
Essa frase desse não-poeta está tatuada em minha alma. Porque sou e estou apaixonada, todos os dias, no bom e no mau sentido da palavra. No sentido de Camões.

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?


E parece-me que a poesia só surte efeito quando você está dentro dela, vivendo-a, com o peito rasgado, ferido, e a cabeça quente, fervendo, derretendo, escurecendo as vistas.

Então hoje (23 de agosto) o almoço na fundação para a qual trabalho foi temático. As crianças assistidas pela fundação, e em parte pelo museu da fundação (sou mais ou menos professora, quando nunca, depois de grande, quis ser, e ainda bem que bebi dessa água que não beberia), fizeram trabalhos comoventes sobre a região Sul do país. A comida também fazia questão de lembrar o cotidiano sulista, talvez com estereótipos, mas pulemos a parte da comida do corpo direto para a comida da alma:

Estava lá, aquele que eu não aguentava mais ver estampado em páginas hipsters do facebook com seus versos burgueses paulistas mal feitos (da página, no caso, e não o artista em si), o tal do Paulo. Não só ele, mas a adaptação de sua obra em obras dos meus pequenos - que na verdade são mais altos que eu, no auge dos seus 13 anos. Além disso, seus versos, suas visões de mundo em poucas palavras, que eu, com tantas palavras ainda consigo conservar o meu silêncio e ser um mistério para mim mesma.

Releituras dos jovens

Reclamei aqui algumas vezes sobre minha dificuldade cada vez maior de expor sentimentos, que acontecia na mesma proporção em que me era cada vez mais fácil expor ideias. Um amigo disse que é porque na adolescência a gente só sabe dizer o que sente, porque só sente e pouco faz, profissionalmente falando. Na maturidade ocorre o contrário: nos dedicamos ao profissional e o sentimental vai enrijecendo, como uma máquina velha, deixada no canto para oxidar e criar teias.

Como sou uma pessoa carregada de memórias e nostalgia, e o afeto que sinto germina por essas vias, consegui reviver pedaços gostosos e dolorosos em mim neste último mês. Por ter estado apática nos últimos anos, essa re-vida foi algo apocalíptico como o Eclipse do Lado Escuro da Lua. Agora parece que abri o peito novamente, depois de um tempo mergulhado na racionalidade e nos sentimentos de rancor, culpa e pena. Por falta de costume, estou sem jeito, dolorida, cansada, desesperada, e cinco minutos depois estou serelepe, sorrindo, gargalhando - de euforia e desespero -, choramingando (porque não consigo mais - ainda - chorar direito {parece que consigo sim, de soluçar, aconteceu}), pensando, suspirando, falando sozinha.

Tanto pedi e busquei ter o coração batendo forte por tudo que faço e que me é caro, para me sentir viva, que me veio retumbar no peito algo além de minha capacidade física, algo que não cabe em 1,57 de altura, nem mesmo numa mente que se ocupa dezessete horas por dia.
Mesmo que me aperte essa sensação sem nome
Ou que me faça engolir a seco a minha sede é de...